Arquivo mensal: junho 2012

Bruce Springsteen é quem manda

Bruce Springsteen é um artista norte-americano acima de qualquer suspeita. Mesmo quem não cultiva simpatia ao que vem de lá, tem por ele admiração e respeito. Porque ele está neste patamar?

Ele é o legítimo porta-voz do proletário médio americano – o que o aproxima de qualquer trabalhador comum de qualquer outro país. Ele nunca evitou as letras de cunho social e, principalmente, nunca foi ufanista. Aliás, um de seus maiores hits, “Born in the USA” foi levantada por grande parte das pessoas como sendo uma canção de orgulho nacionalista, ao passo que trata-se na verdade, de uma crítica feroz ao apego bélico que os EUA possuem em seu DNA. Um de seus maiores sucessos, com uma letra contundente e crítica, foi distorcida, tanto que em várias vezes ele falou do assunto.

Por estes motivos é que ‘The Boss’ (‘O Chefão’, como é chamado) tem esta moral toda. Além de ter a sensibilidade de retratar o cotidiano da classe trabalhadora, nunca foi hipócrita e sempre se engajou em causas nobres.

Após os atentados de 11 de setembro de 2001, não poderia existir ninguém mais apropriado para, a partir daquele drama, trazer reflexões, choro, lembranças e um sopro de vida e esperança. Pouco depois do acontecimento, Springsteen passou a compor sobre o tema.

Em julho de 2002, é lançado The Rising, um álbum emocionante, sem jamais ser piegas. É como se fosse um motivo para continuar, um mural de homenagens, de lembranças e redenção, de pensamentos sobre o mundo e a vida, mas com o indicativo do passo a seguir.

Recomendo com louvor o álbum, que é um documento histórico. Muitos artistas se disseram tocados e influenciados pela tragédia, mas tenho certeza de que nenhum é tão apropriado para falar do tema quanto Bruce Springsteen.

“Empty Sky” é uma das minhas preferidas. Não convém traduzir parte da poesia porque, assim, acho que ela deixaria de sê-lo. A linda canção traz o vazio de um céu, o atordoamento diante do acontecido, a busca por um norte, a simplicidade de se querer apenas um olhar e um abraço quando tudo em nossa volta desmorona.

Do mesmo disco, a poderosa “Lonesome Day”. E claro, a clássica – e de interpretação distorcida – “Born in the USA”.

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Os setenta anos do maior de todos: Gilberto Gil

Hoje é aniversário de setenta anos de Gilberto Gil. Dos grandes referenciais da nossa música, ele é meu predileto. Na verdade, acho que ele é o maior, embora apenas diga isso para fins de uma possível organização de favoritos, afinal, não são poucos os nossos gênios musicais.

Gil é brasileiríssimo. Mas também passeia tranquilamente por uma linguagem cosmopolita. É ele quem consegue a mais legítima expressão reggae no Brasil. É ele quem, genialmente, declara que ‘o reggae é um xotezinho sem vergonha’ e demonstra isso na prática ao unir as duas linguagens e marcar um golaço.

Gil fez sambas lindos, de suingue incomparável e de letras complexas e pensantes. Suas harmonias e seu toque trazem à tona o grande músico que ele é.

Gil tem a sacada infalível de trazer o berimbau e a batida típica da capoeira à poesias inspiradoras e inesquecíveis como na seminal “Domingo no Parque” e da filosófica “Parabolicamará”.

Gil é audacioso; é inquieto, sempre buscou por outros caminhos demonstrar sua arte. Seus experimentalismos me soam superiores e mais bem sucedidos que os de seus semelhantes.

Gil tem a delicadeza e a inspiração para nos presentear com sensíveis pérolas musicais.

Gil é energia pura. É poesia, harmonia, melodia, pegada e delicadeza; é a música brasileira em seu ápice.

Gil é a música brasileira.

 

O filme sobre Elis Regina

Segundo o jornalista Ancelmo Gois, em sua coluna no jornal Diário de S. Paulo, Nelson Motta começou a escrever o roteiro para o filme sobre Elis Regina, que será produzido por Paula Barreto e dirigido por Hugo Prata que fará a sua estréia em longas.

Os filhos João Marcelo Bôscoli, Maria Rita e Pedro Mariano já autorizaram o projeto, que deve ter a atriz Andreia Horta no papel de Elis.

Ainda está tudo num estágio embrionário, mas creio que o início é promissor. Nelson Motta, autor de “Noites Tropicais” e “Vale Tudo: O som e a fúria de Tim Maia” – obras literárias fundamentais da música brasileira – é um exímio conhecedor de valiosos detalhes da formação da MPB e da própria vida de Elis Regina. Ele foi testemunha ocular do surgimento e da vida desta que é a maior cantora brasileira de todos os tempos.

As releituras de Nei Lisboa em “Hi-Fi”

Em 1998, Nei Lisboa lançou Hi-Fi, disco gravado ao vivo no Theatro São Pedro, em Porto Alegre, cujo repertório era composto somente por covers do folk e do pop norte-americano e inglês.

Em sua página na web, Nei conta que, ao cursar o último ano do colégio em Barstow (Califórnia), aos 16 anos, “jogado em tal metrópole ianque, e tão arredio quanto possível”, acabou fazendo parceria com um violão de cordas de aço que estava jogado no armário. Recorrendo à loja de música do lugar, a songbooks e cifras avulsas de Elton John, Beatles, Paul Simon, Seals & Crofts e outros, resolveu gravar um disco deste repertório… vinte anos depois. Daí também a explicação para a foto de capa, tirada na mesma época, para o livro anual do colégio.

Acho a sacada deste disco sensacional. São as canções que fizeram a base e que foram companheiras de vida de um dos maiores símbolos da música urbana do sul. O repertório é um primor, encontrou na voz de Nei, em seu violão e no de Paulinho Supekóvia a devida estética folk.

Costumo dizer que Nei Lisboa, por sua música, poderia muito bem figurar entre os grandes no centro do país. Por outro lado, acho que essa nunca foi a sua idéia; e sendo egoísta, fico feliz que ele nunca tenha saído daqui – é uma preciosidade nossa.

Sou um tanto desconfiado com releituras, principalmente quando ocorrem sobre canções sagradas e perpetuadas. Mas o bom gosto e a sutileza de Nei fez com que Hi-Fi se tornasse um disco sincero e por demais bonito.

Abaixo algumas das minhas prediletas do disco. “Ventura Highway” do America, “Summer Breeze”, de Seals & Crofts e a mais linda de todas “Norwegian Wood”, uma das minhas favoritas dos Beatles.

Saindo da caverna pra reclamar

A nova classe C agora é pretexto para tudo que há de mais descartável na mídia. A imbecilidade é justificada porque “o foco são as classes econômicas emergentes, que não consomem coisas com conteúdo e que somente se vão no efeito manada”.

Primeiramente, se apenas o consumo de lixo é facilitado, é claro que as pessoas – pouco curiosas e ávidas por coisas diferentes que são em sua essência – irão consumir lixo. Não acho que o problema seja somente o público.

O que é nojento é o modo de operação da mídia.

Tornam programas outrora apenas decadentes em um imenso balde de lixo. O Fantástico, da Globo, por exemplo, anda começando suas edições mostrando entrevista com cantor brega (cuja música fala em ‘humilde residência’) abrindo as portas de seu novo luxuoso apartamento. Eu só posso imaginar que os mentores de tal matéria devem ter se rolado no chão de rir com a sorrateira ironia imbecil contida na dicotomia da história.

Sem ser demagogo, mas enquanto este programa ridículo faz uma matéria desta estirpe, deveria estar falando de mais uma pizza prestes a sair de uma CPI que está a pleno vapor.

Mas não, a idéia é convencer a audiência de que a burrice vence, uma dança imbecil de uma música podre eleva alguém ao status de astro. Vende-se a idéia de que realmente produzimos grandes estrelas da música, sendo que nada mais são do que mercadorias efêmeras cujo produto resultante (a música) é apenas um mero detalhe da embalagem, que apenas traz benefícios financeiros generosos para o próprio protagonista.

O objetivo é mostrar que o lixo impera, que a babaquice predomina, que ler um livro ou um jornal/revista descente é perda de tempo e não leva a nada.

A reiteração do lixo em programas esportivos, de auditório ou em ‘revistas’ semanais faz parte desta cultura em prol da ignorância que se justifica, claro, como “sendo direcionada à nova classe C”.

Legal é o ignorante que vence, que joga bola, não sabe falar, promove a estupidez e tem uma conta bancária gorda.

Legal é o cara que canta letra bagaceira, que influencia a promiscuidade e compra apartamento caro com a fortuna que recebe.

Aliás, se batizou de “universitário” um gênero musical cujos cantores possuem visual de roqueiro, nunca ouviram um rock,  jamais passaram perto do sertão, e que com meia dúzia de esganiçadas na voz, um empresário com grana e um jogador de futebol idiota pra dançar a sua música é elevado à condição de milionário da música da noite para o dia.

O pior é que aqueles que em outros tempos deveriam ser mais esclarecidos e que formariam a opinião das pessoas baseadas em boas leituras, informações e boa música, hoje são os propagadores de um doentio círculo vicioso da coisa ruim.

É desolador notar que apenas algumas ilhas mantêm seus princípios, não acham graça na chinelagem, vão em busca de algo de conteúdo e se enojam diante da podridão que nos oferecem, enquanto que a mídia e a grande maioria permanece achando tudo muito natural .

E eu, que vivo a música, lamento profundamente ter ela se tornado, para estes imbecis, apenas um acessório. Não se escuta mais uma música pura e simplesmente por gostar dela – sempre há algo atrelado. O sujeito ouve lixo porque a menina bonita gosta e dança. Ou porque o boleiro predileto, aquele que está milionário, faz dancinha na hora de comemorar gol. Ou porque é legal sair com o som do carro arregaçado, tocando lixo no ouvido de quem está passando. Sempre há motivação maior, jamais a música pela música.

Como sempre digo, prefiro ignorar o que não me agrada e o que me revolta. De tempos em tempos, de anos em anos preciso fazer um desabafo tolo como este; depois volto pra minha caverna e vou ser feliz sem me revoltar com ninguém, ouvindo meus sons, assistindo o que gosto, lendo o que me agrada e escrevendo sobre um mundo paralelo aqui no blog.

Com licença.

Paul McCartney – 70 anos (ao vivo no estádio Azteca)

E já que o dia é de falar em Paul McCartney, disponibilizo abaixo links de alguns vídeos do recente show que ele fez no Estádio Azteca, no México (maio de 2012).

Os vídeos são em HD e vale se emocionar e se arrepiar com a emoção do público de mais de 70 mil pessoas e do próprio Paul, que do alto de seus 70 anos, continua apresentando, mundo afora, um dos melhores espetáculos musicais que alguém pode assistir e, assim, segue mudando a vida destas mesmas pessoas para sempre.

Os 70 anos de Paul

Hoje é aniversário de Paul McCartney, o maior artista vivo da música pop, um dos mais influentes e importantes músicos de todos os tempos, uma das personalidades mais conhecidas e relevantes de toda a história.

Não se discute genialidade e os Beatles eram a união de personalidades geniais e distintas; nada os supera ou a eles se compara. Porém, na hora de se fazer aquela pergunta clássica – “qual o seu Beatle predileto?” – sou taxativo: Paul McCartney.

Primeiro, por sua música, claro. Fora dos Beatles, acho a obra dele igualmente genial e fundamental. Não há muito o que se dizer quando se está diante da produção de uma entidade tão importante, toda análise fica um tanto tola. Simplesmente, ele é gênio.

Segundo, simpatizo com seu comportamento e sua personalidade. Me agrada o fato dele se mostrar afável, gentil, mas ferrenho e forte na defesa de suas idéias, desde a banda de Liverpool.

Em 2010 tive a grande realização do sonho de vê-lo num show ao vivo; é incrível como até hoje isso parece algo grandioso demais para ser verdade. Inveja daqueles que vivem no hemisfério norte e que podem assisti-lo quando bem entendem.

Há algum tempo, também escrevi um texto no qual falava sobre um polêmico e absurdo desconhecimento sobre quem era Paul McCartney, que rolou durante a entrega do Grammy.

Enfim, Paul McCartney é até nome de categoria em meu blog. Jamais quis dedicar este espaço a apenas um artista – até porque idolatro alguns outros igualmente – porém, acho que Paul sempre será uma categoria de assunto, inclusive em produtivas rodas de conversas entre pessoas.

Sua obra, seu legado, sua incrível influência na nossa cultura e na música que ouvimos (e que pode parecer  não ter nada a ver com o baixista), sua poesia, sua sofisticação e sensibilidade melódica são motivos para inúmeras e maravilhosas análises por parte daqueles que querem conhecer mais sobre a arte que se torna relevante, que não é modismo e que irá perdurar para sempre.

É um artista genuinamente pop, em toda a essência. Possui a sensibilidade de absorver e transmitir influências tão diversas que somente um gênio pop pode ter a capacidade de fazer.

Aliás, você quer saber o motivo de ser tão difícil, tolo e em vão querer explicar, entender e escrever sobre ele?  Porque sua obra é eterna, atemporal. Ela é parte da vida de uma infinidade de pessoas, mesmo que indiretamente. Nada pode ser maior do que isto.

O melhor é ouvir e admirar a sua obra.

Reverências mil a Paul McCartney.