Saindo da caverna pra reclamar

A nova classe C agora é pretexto para tudo que há de mais descartável na mídia. A imbecilidade é justificada porque “o foco são as classes econômicas emergentes, que não consomem coisas com conteúdo e que somente se vão no efeito manada”.

Primeiramente, se apenas o consumo de lixo é facilitado, é claro que as pessoas – pouco curiosas e ávidas por coisas diferentes que são em sua essência – irão consumir lixo. Não acho que o problema seja somente o público.

O que é nojento é o modo de operação da mídia.

Tornam programas outrora apenas decadentes em um imenso balde de lixo. O Fantástico, da Globo, por exemplo, anda começando suas edições mostrando entrevista com cantor brega (cuja música fala em ‘humilde residência’) abrindo as portas de seu novo luxuoso apartamento. Eu só posso imaginar que os mentores de tal matéria devem ter se rolado no chão de rir com a sorrateira ironia imbecil contida na dicotomia da história.

Sem ser demagogo, mas enquanto este programa ridículo faz uma matéria desta estirpe, deveria estar falando de mais uma pizza prestes a sair de uma CPI que está a pleno vapor.

Mas não, a idéia é convencer a audiência de que a burrice vence, uma dança imbecil de uma música podre eleva alguém ao status de astro. Vende-se a idéia de que realmente produzimos grandes estrelas da música, sendo que nada mais são do que mercadorias efêmeras cujo produto resultante (a música) é apenas um mero detalhe da embalagem, que apenas traz benefícios financeiros generosos para o próprio protagonista.

O objetivo é mostrar que o lixo impera, que a babaquice predomina, que ler um livro ou um jornal/revista descente é perda de tempo e não leva a nada.

A reiteração do lixo em programas esportivos, de auditório ou em ‘revistas’ semanais faz parte desta cultura em prol da ignorância que se justifica, claro, como “sendo direcionada à nova classe C”.

Legal é o ignorante que vence, que joga bola, não sabe falar, promove a estupidez e tem uma conta bancária gorda.

Legal é o cara que canta letra bagaceira, que influencia a promiscuidade e compra apartamento caro com a fortuna que recebe.

Aliás, se batizou de “universitário” um gênero musical cujos cantores possuem visual de roqueiro, nunca ouviram um rock,  jamais passaram perto do sertão, e que com meia dúzia de esganiçadas na voz, um empresário com grana e um jogador de futebol idiota pra dançar a sua música é elevado à condição de milionário da música da noite para o dia.

O pior é que aqueles que em outros tempos deveriam ser mais esclarecidos e que formariam a opinião das pessoas baseadas em boas leituras, informações e boa música, hoje são os propagadores de um doentio círculo vicioso da coisa ruim.

É desolador notar que apenas algumas ilhas mantêm seus princípios, não acham graça na chinelagem, vão em busca de algo de conteúdo e se enojam diante da podridão que nos oferecem, enquanto que a mídia e a grande maioria permanece achando tudo muito natural .

E eu, que vivo a música, lamento profundamente ter ela se tornado, para estes imbecis, apenas um acessório. Não se escuta mais uma música pura e simplesmente por gostar dela – sempre há algo atrelado. O sujeito ouve lixo porque a menina bonita gosta e dança. Ou porque o boleiro predileto, aquele que está milionário, faz dancinha na hora de comemorar gol. Ou porque é legal sair com o som do carro arregaçado, tocando lixo no ouvido de quem está passando. Sempre há motivação maior, jamais a música pela música.

Como sempre digo, prefiro ignorar o que não me agrada e o que me revolta. De tempos em tempos, de anos em anos preciso fazer um desabafo tolo como este; depois volto pra minha caverna e vou ser feliz sem me revoltar com ninguém, ouvindo meus sons, assistindo o que gosto, lendo o que me agrada e escrevendo sobre um mundo paralelo aqui no blog.

Com licença.

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4 pensamentos sobre “Saindo da caverna pra reclamar

  1. Fernanda 19 de junho de 2012 às 12:11 pm Reply

    Uau, Que texto hein!!? falou tudo, Queria ter essa facilidade que tu tens para escrever! parabéns!

    • Márcio Staggemeier 19 de junho de 2012 às 12:21 pm Reply

      Fernanda!
      Obrigado, de verdade! Valeu pelo elogio! Assim sempre se consegue motivação pra continuar escrevendo e, principalmente, pensando!

      Obrigado.

  2. tiago 19 de junho de 2012 às 5:30 pm Reply

    Marcinho com sempre brilhante.

    Esse texto exterioriza também os meus sentimentos que na maioria das vezes não consigo expressá-los por falta de palavras ou por não valer a pena o discurso com algumas pessoas. Mas queria deixar minha indignação aqui também com a programação, especialmente na parte esportiva que é a que mais acompanho.

    É verdade que muitas vezes me irritava o espaço demasiado a determinadas reportagens sobre a “comida típica” do clássico tal, esquecendo de informar sobre o jogo decisivo em si.

    Porém, de uns dois anos para cá ocorre uma inversão. O que era eventual se tornou padrão. O lado “cômico” é a regra, enquanto reportagens técnicas se tornaram quase uma “vergonha” para os produtores e editores de programas. Reportagens sobre as músicas preferidas de um centroavante em suas comemorações recebem bons cinco minutos de fama. Enquanto isto, ficamos sem assistir os gols da Segunda Divisão ou informações sobre times do interior.

    Uma reportagem pode ser séria e emocionante sem cair no ridículo. A pouco tempo atrás vi uma reportagem sensacional da série “Missão de Paz” com Régis Rösing em Angola, mostrando os impactos das constantes guerras no país e como está a reconstrução do mesmo, com um foco esportivo.

    Outra coisa que me deixa muito triste também é ver que o momento ápice do futebol que é o gol, comemorado com dancinhas cada vez mais ridículas, as vezes para ajudar alavancar “cantores” da moda ou até influenciados por emissoras de TV (caso joão sorrisão). Há também aqueles que beijam os escudos dos times num jogo pela manhã e na parte da tarde já estão se apresentando no clube rival. Saudades de ver uma comemoração com garra e amor com aquilo que fazem.

    Pra finalizar vou usar uma frase que meu pai sempre fala quando vê esse tipo de comemoração:
    “PELÉ,GARRINCHA,COUTINHO…nunca beijaram os escudos de seus times. Não por não dar valor a camisa, mas porque não precisava.”

    * comentário grande, mas me indignei também.

    abraço marcinho

    • Márcio Staggemeier 19 de junho de 2012 às 7:33 pm Reply

      Tiago,

      só tenho a agradecer pela gentileza das palavras e tb por tua bela contribuição. Digo o seguinte: se todas as vezes que me revolto eu escrevesse sobre isso, seria taxado de ranzinza (não que eu não o seja). E me identifico com a tua indignação e com a falta de ânimo em querer exteriorizá-la num ambiente em que talvez sequer sejamos compreendidos.

      Mesmo assim, nós temos que trazer à tona tais questões; o fato de trabalharmos (meu caso) muitas vezes com determinados estilos musicais, não nos pode cegar ou impedir de termos opiniões claras e salutares, para com aqueles que estão à nossa volta e com nossa própria cultura musical.

      Abraço e obrigado.

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