Caetano, Gil e os 20 anos do massacre

O ano de 1992 foi um ano agitado, lembro-me bem. Eu cursava a sétima série do primeiro grau e, embora a informação circulasse de maneira bem mais lenta e menos detalhada do que hoje, os fatos aconteciam numa velocidade intensa.

Há exatos 20 anos, o Brasil escrevia em sua história uma das páginas mais nebulosas. Na tarde de 02 de outubro de 1992, na Casa de Detenção, em São Paulo, aconteceu o massacre do Carandiru, onde 111 presos foram mortos pelas tropas de choque da polícia.

Obviamente, não entro no mérito de julgamentos e detalhes – estes encontramos aos montes pela rede.

O fato originou várias manifestações na nossa cultura pop, como o livro de Drauzio Varella, Estação Carandiru que deu origem ao premiado filme, Carandiru, dirigido por Hector Babenco.

Em 1993, Caetano Veloso e Gilberto Gil lançam em conjunto o álbum Tropicália 2. A principal faixa, “Haiti”, é um soco no estômago. A letra trata da segregação racial, da desigualdade tão presente em nossa realidade, da hipocrisia de políticos, da miséria na qual nos encontramos… Contudo, o fio condutor da poesia é o massacre do Carandiru.

Aliada a um instrumental tenso, a canção é um retrato único.

Alguns trechos ganham uma aura muito pesada com elementos que são somados à canção:

“E hoje um batuque um batuque com a pureza de meninos uniformizados de escola secundária em dia de parada” – aqui, a inserção da batida clássica do Olodum nada traz de euforia, ela é melancólica.

O assovio solitário no trecho “E se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual, notar um homem mijando na esquina da rua sobre um saco brilhante de lixo do Leblon” é ácido e incômodo.

 “E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo diante da chacina” –  ao som de um dramático e solitário violoncelo, é possível sentir o nefasto cenário da tragédia. Aliás, a frase “E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo” não é nada menos que genial.

Sempre me impressiona como a tensão da melodia e dos instrumentos se aliou tão perfeitamente à letra. A linha de baixo é carregada, densa, autoria de Liminha. O violão que conduz a música é desconfortável e viciante.

Por mais que se ouça e se interprete “Haiti”, ela sempre será passível de mais e mais abordagens. E nunca deixará de arrepiar.

E, para constar: Carandiru é um filme obrigatório.

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4 pensamentos sobre “Caetano, Gil e os 20 anos do massacre

  1. Maarcelo Petter 2 de outubro de 2012 às 12:58 pm Reply

    Um ótimo texto, como sempre, Marcinho! Refletimos!

  2. Lucas Brolese 2 de outubro de 2012 às 1:26 pm Reply

    Grande Márcio!! Há quanto tempo!! Muito bom, pelo único artigo que li percebo que estás fazendo um trabalho de coração! Acabei de receber o compartilhamento do Maaarcelo. Vale citar que no disco Chaos A.D. do Sepultura também há uma citação sobre Carandiru, não ouço há muitos anos mas está na minha memória, pelas sirenes, e o peso do quarteto!!
    .

    • Márcio Staggemeier 2 de outubro de 2012 às 1:36 pm Reply

      Lucas! Que ótima surpresa te encontrar por aqui! Podes ter certeza de que o trabalho é de coração, brother!

      E só posso agradecer pela tua contribuição sobre o tema. Poxa, seja sempre muito bem-vindo para propor reflexões, dar dicas, informações. Afinal, com toda a tua bagagem, sei que haverá um imediato enriquecimento por estas bandas.

      Abraço!

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