Para não deixar de ler: “Carcereiros” – Drauzio Varella

Impossível não partilhar aqui no blog a experiência de ler um livro tão relevante quanto “Carcereiros”, do médico Drauzio Varella. Na verdade, sua bem sucedida incursão pela literatura já não permite mais que ele seja somente chamado de médico – é sim, um belíssimo escritor, que traduz por meio de uma linguagem simples e arrebatadora a crueza de um submundo que somente queremos nos assegurar que fique bem longe de nós.

Se no aclamado best-sellerEstação Carandiru” o autor fala sobre a rotina na Casa de Detenção em São Paulo, seu convívio com presos e o nefasto massacre, neste novo livro ele conta as diversas histórias relacionadas à realidade por trás dos muros dos presídios – sobretudo o Carandiru – vistas pela ótica dos carcereiros.

Desde a época em que Drauzio iniciou seu trabalho voluntário na antiga Casa de Detenção – no final dos anos 80 – ele já se reunia nos bares com os carcereiros após o expediente. Essa prática continuou até os dias de hoje, mesmo 10 anos depois da implosão do presídio; a cada duas ou três semanas eles se reencontram a fim de manter os laços, falar sobre seu cotidiano, relembrar histórias.

São essas histórias, contadas através da cativante escrita de Drauzio que tornam o livro tão fascinante. Na verdade, ele é um exímio observador. Você passa a entender minimamente como a rotina de um presídio – seja no papel de bandido ou funcionário – muda totalmente a forma de ver a vida de um indivíduo.

Transcrevo trecho do livro em que Drauzio Varella fala da primeira vez em dezesseis que ficou longe do trabalho nos presídios. Aqui é possível entender o porquê de um médico pop, extremamente bem sucedido e competente como ele não se afastar deste reduto que toda a sociedade quer ver longe de si.

“… a falta de contato com o ambiente marginal deixava a vida mais pobre. Estava tão envolvido com aquele universo, que abrir mão dele significava admitir passar o resto da existência no convívio exclusivo com pessoas da mesma classe social e com valores semelhantes aos meus, sem a oportunidade de me deparar com o contraditório, com o avesso da vida que levo, com a face mais indigna da desigualdade social, sem ouvir histórias que não passariam pela cabeça do ficcionista mais criativo, sem conhecer a ralé desprezível que a sociedade finge não existir, a escória humana que compõe a legião de perdedores que um dia imaginou realizar seus anseios pela via do crime, e acabou enjaulada num presídio brasileiro.”

 

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