Música é mar, letra é embarcação

Outro dia, assistindo um documentário sobre Marina Lima, gostei muito de uma expressão que ela usou, ao falar da construção da canção: “música é mar, letra é embarcação”.

É interessante como várias reflexões nos vêm à mente a partir desta frase. Começa pela importância (nada mais do que a real importância, diga-se de passagem) que uma artista notadamente pop dá para a música em si – resultado de melodia, harmonia e ritmo.

Veja a grandeza do elemento música e todas as suas possibilidades, desde a simples opção entre o uso de um acorde ou outro. Os emaranhados maravilhosos de harmonias sofisticadas de um Tom Jobim; a genial música dos Beatles – muitas vezes simples harmonicamente, porém sempre original melodicamente e, acima de tudo, não menos sofisticada.

Por outro lado, um dos aspectos mais inexplicáveis da música é o ritmo e seu poder de nos atingir simplesmente por meio do uso bem sacado de notas e pausas, através de tempos e compassos.

Sem bancar o chato com uma linguagem técnica enfadonha: o que leva você a bater o pé ao acompanhar um ritmo? Não há explicação. Apenas a constatação de que é algo muito forte, intenso e puro. Tanto é que, não raro, uma criança que mal sabe dar seus primeiros passos, que tampouco consegue falar uma palavrinha sequer, começa espontaneamente a se sacolejar ao som de uma batida rítmica que lhe agrade.

Simplicidade é diferente de simplório: penso em tantos jogos harmônicos intrincados de composições um tanto pretensiosas que muitas vezes nada possuem de musicais e encantadoras, bem como notas e mais notas que no fim parecem apenas um mero desperdício. Isto é ser simplório, é subestimar a arte.

De vez em quando se utiliza a expressão “na música, menos é mais”. Ok, funciona em muitos casos. Porém, a grande graça da coisa é que não existe uma fórmula de fato. Em muitas ocasiões, mais é mesmo mais e pronto. Mas quem sabe dizer exatamente o que é esse mais?

Acho que o que define tudo é a existência de um bom senso estético. Existe a hora certa de respirar, de pulsar, de criar tensão, de simplificar, de complicar, de aliviar. Mas, como já se disse que não existe fórmula pronta, o bom senso e a noção de estética é que serão preponderantes no resultado final de uma expressão musical.

O grande Nico Assumpção já sentenciou sabiamente: você estuda, ouve, decora padrões, fórmulas, organiza clichês, cria técnicas, se debruça sobre teorias, etc. Na hora de tocar, coloque tudo isso de lado e preocupe-se em fazer música.

Que sacada perfeita! É uma diretriz que procuro sempre levar comigo. Isso é enaltecer a arte, dar a ela o seu devido e inestimável valor.

O fato de conhecer um punhado de informações a mais não fará ninguém mais músico do que um sujeito que, sem nada disso, faz um som maravilhoso, sincero e cheio de ritmo lá num bar qualquer de Cuba, por exemplo.

A música não é algo gelado, enquadrável. David Gilmour dizia que era preciso saber descompactar, referindo-se à capacidade de jogar levemente com o andamento da canção, baseando-se nas suas dinâmicas.

A música é arte, é maior do que qualquer pretensiosa explicação lógica. A música é mar.

E ainda nem falamos das embarcações…

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: