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O pop de voz e violão de Tracy Chapman

tracychapmanÀs portas dos anos noventa, tomou de assalto a música pop mundial uma voz que ninguém sabia ao certo se era de uma mulher ou de um homem. Certo apenas que as canções eram boas. Como sempre vale frisar, a época era diferente – muitas vezes, sequer tinha-se ideia do rosto do artista.

A cantora em questão era Tracy Chapman, uma negra norte-americana, vinda de origem humilde, vencendo pelo próprio talento, sendo rodada em rádios de todo o mundo de uma hora pra outra.

Além da bonita voz de Tracy, sou apaixonado pelos violões dessas músicas. São limpos, cristalinos, com melodias delicadas.

Não tenho nenhum motivo especial para falar dela, a não ser pura e simplesmente sua música. E isso só já vale a lembrança. “Fast Car” e “Baby Can I Hold You Tonight” – música pop de primeira!

 

Cash e Dylan num grande momento musical

48235Johnny Cash já era um nome conhecido e reverenciado na música norte-americana, enquanto que Bob Dylan trazia o novo e satisfazia uma legião crescente de fãs. Isso em meados dos anos 60.

Havia uma admiração mútua entre Cash e Dylan, mesmo que ainda não se conhecessem pessoalmente. No entanto, isso não impediu o primeiro de defender o mais jovem quando este foi alvo de críticas que o acusavam de ter traído princípios, movimentos e toda essa balela. Resumindo, Cash pediu que deixassem Dylan livre, para compor e cantar o que bem entendesse.

Os dois encontraram-se tempos depois, tocaram juntos informalmente, estabeleceram laços, Johnny presenteou Bob com seu violão Martin. Mas somente em 1969 é que a parceria foi gravada.

Dylan finalizava Nashville Skyline e recebeu a visita de Cash, que trabalhava no estúdio ao lado. Passaram dois dias juntos e, como muitas das coisas mais geniais que já foram criadas na música, a despretensão foi o pontapé inicial para que registrassem 23 canções, que foram compiladas e ficaram conhecidas como The Nashville Sessions. No entanto, oficialmente, apenas a belíssima “Girl From North Country” é que foi lançada no álbum de Bob Dylan.

É muito difícil falar de duas sumidades absolutas, seres tão poderosos quanto Johnny Cash e Bob Dylan. O melhor a fazer é prestar reverência e ouvir sua obra. De qualquer modo, é preciso lembrar da grande parceria que os dois tiveram e da admiração que cultivavam pelo trabalho um do outro. Dylan sempre deixou claro que muito de sua carreira ter alçado vôos definitivos devia-se ao impulso dado por Cash, tanto em shows, como em manifestações e, principalmente, em seu programa de TV, The Johnny Cash Show.

Dylan sempre admirou o grande amigo Cash, o considerava “o rei”. E quando ele morreu, Bob escreveu uma bela e emocionada carta.

 

Abaixo, a belíssima “Girl From North Country”. A canção, alias, faz parte da cena mais bonita do filme “O Lado Bom da Vida”, com Bradley Cooper e Jennifer Lawrence.

Na sequência, “One Too Many Mornings”, que traz o registro de Cash e Dylan gravando a canção, em estúdio.

 

 

 

James Jamerson: o aniversário de um dos maiores baixistas da música pop

James Jamerson foi um dos mais importantes baixistas da história e, sem dúvida, um dos mais influentes. O conceito de linha de baixo na música pop, com o instrumento como protagonista e fio condutor teve nele seu principal e mais inventivo precursor. Hoje estaria completando 77 anos de idade.

Nascido na Carolina do Sul, ainda jovem mudou-se para Detroit, a cidade dos automóveis, a “Motor Town”. Daí veio o nome da gravadora pela qual Jamerson consagrou seu inigualável trabalho: a Motown.

A gravadora, que teve seu apogeu nos anos 60, embora ainda estivesse em atividade na década de 70, possuía um imenso cast, que emplacou hits que até hoje são referência na música pop. E James Jamerson era o baixista da gravadora, tendo participado de uma grande parte dos trabalhos lá lançados. Suas linhas de baixo sempre foram consideradas parte fundamental da “sonoridade Motown”.

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James Jamerson junto de seu imprescindível Fender Precision

Embora músicos mais jovens, pouco preocupados em beber na fonte, talvez sequer conheçam o trabalho de Jamerson, alguns dos mais importantes e conhecidos baixistas da música citam-no como uma de suas grandes influências, tais como Abraham Laboriel, Pino Paladino, John Entwistle, Jack Bruce, John Paul Jones, John Patitucci, Geddy Lee, Victor Wooten, Paul McCartney e o ícone maior do contrabaixo, Jaco Pastorius.

James Jamerson possuía as grandes virtudes do músico pop: versatilidade, frases inspiradas e ricas, linhas com padrões extremamente musicais, influências de vários estilos, como o jazz, o rock, o soul e o funk.

Suas linhas de baixo eram pura categoria, suingue, balanço; cheias de uma sofisticação que muitos dos músicos atuais deixaram de lado, em prol de um virtuosismo viciado e chato.

Dia de render homenagens a um dos maiores músicos da história.

Abaixo, algumas músicas clássicas da Motown, cujas linhas de baixo foram criadas por James Jamerson.

Há 20 anos: uma banda chamada Tigres de Bengala

Tigres1Para  mostrar que nem só de modernices vive este blog (bastou dois posts de artistas contemporâneos pra já sair essa auto-piada sem graça), como todos sabem, a música, bem como a moda e o estilo de vida em geral, são cíclicos. Geralmente, o passado é revisitado ou cultuado após uns 20 anos.

Aí, claro, incluem-se algumas coisas dignas de lembrança, outras não, além daquelas que valem ser rememoradas por sua característica inusitada, peculiar, seu grau de influência, sua efemeridade, etc.

Todo esse rodeio pra falar de uma banda brasileira que se lançou há exatos 20 anos, que fez um relativo sucesso com duas boas canções pop na época, mas que definitivamente não vingou sequer um segundo álbum.

Falo do Tigres de Bengala, uma espécie de supergrupo que reuniu Ritchie, Cláudio Zoli, Vinícius Cantuária, Dadi, Mú (A Cor do Som) e Billi Forghieri. Eram todos músicos consagrados, mas que estavam à margem da cena musical brasileira naquele período.

Embora tenham tido uma carreira meteórica e hoje mal sejam lembrados, mesmo por quem os conhecia à época, emplacaram dois hits: “Elefante Branco” e “Agora ou Jamais”.

Vera Hall – primórdios do folk e da música pop

Sem perceber, acabei fazendo um jogo de opostos cronológicos. No post de ontem falei sobre Emeli Sandé – que como tantas outras, surge da inesgotável e efervescente cena britânica de cantoras de soul. Pois hoje, escrevo sobre Vera Hall (citada no post da semana passada referente ao Moby –  em “Natural Blues”, ele usou o sample de Vera cantando “Troubled  so Hard”).

Vera Hall nasceu em 1902 e faleceu em 1964. Em seu tempo, as gravações ainda eram artigo raríssimo; a música e seu talento não tinham a exposição e a valorização que teriam futuramente, tanto que essa nunca foi sua prioridade – era normal que a base das famílias fossem as atividades rurais.
Contudo, Vera pode ser considerada uma destas figuras lendárias que ajudaram a formar os alicerces do que viria a ser a música nas décadas seguintes.

Em 1937, o folclorista, produtor, músico e professor John Avery Lomax – um personagem importantíssimo para a música americana – descobriu Vera em suas andanças pelo interior do Alabama. Sem titubear, resolveu gravar Hall, que cantou sem acompanhamento instrumental algum.

Estes registros tornaram-se referência da música folk e estão guardados na Biblioteca do Congresso Americano para preservação.

Sou fascinado por estes personagens e suas histórias. Essa gente que cantava divinamente nas lavouras, nas prisões, em seus trabalhos árduos. Foram todos fundamentais para a música.

 

“Another Man Done Gone” -Vera Hall

“Death, Have Mercy” – Vera Hall

“Troubled So Hard” – Vera Hall