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Filme: “Relatos Selvagens”

relatos-salvajesAssisti ao filme “Relatos Selvagens”, que concorre ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Pode parecer exagero, mas, no momento, há poucas coisas melhores no mundo da sétima arte do que o cinema argentino.

Compará-lo com o brasileiro é quase uma comédia (tão ruim quanto as que se fazem por aqui – com o perdão do trocadilho ocasional).

Clint Eastwood disse certa vez que, para ele, interessa poder contar boas histórias através dos filmes.  E sempre que assisto a algum filme vindo do país do onipresente Ricardo Darín, saio com essa sensação, de que vi uma boa história sendo contada.

“Relatos Selvagens” é um soco na cara, no estômago… faça a sua escolha. Drama, humor negro… são seis histórias independentes, contadas uma após a outra – sendo que os créditos iniciais aparecem apenas após a primeira história já ter deixado o espectador com cara de abobado na cadeira.

Em suma, os relatos apresentam pessoas comuns que chegam a limites de raiva, de repulsa, de atitudes impensadas, de vingança e violência após viverem situações extremas de estresse ou traumas que de uma hora para outra caem em seu colo. O mais impressionante é que são todas situações absolutamente reais, comuns, que podem até fazer você repensar algumas atitudes – embora no filme elas sejam levadas aos limites mais extremos.

Contudo, é um filme de tanta qualidade, tão coeso, mesmo contando histórias independentes entre si, que me faz ter vontade de assisti-lo outras vezes mais. Ele não é óbvio, de redenção, finais felizes ou qualquer circo armado que se vê em filmes menos cotados de Hollywood.

Você meio que torce por todos os personagens porque, embora haja extremas explosões psicológicas e comportamentais, acontece uma identificação com as situações desafortunadas que acontecem a eles.

É dirigido por Damián Szifron, tem produção de Pedro Almodóvar, trilha sonora do maravilhoso Gustavo Santaolalla.

Trailer:https://www.youtube.com/watch?v=g4DCVJF1RbA

Um belo filme, uma química perfeita

james-gandolfini“À Procura do Amor” (“Enough Said”, de Nicole Holofcener, 2013)  é mais um daqueles filmes que, levando-se em conta o título que recebeu no Brasil, não desperta maiores atenções. No entanto, o que me atraiu para assisti-lo, antes de qualquer coisa, foi a dupla de protagonistas, consagrados por suas atuações em séries de absoluto sucesso na televisão: Julia Louis-Dreyfus, de “Seinfeld” (e que está na crista da onda nos EUA por seu papel na série de comédia “Veep”) e James Gandolfini, de “Família Soprano” (morto de infarto, logo após as filmagens).

Eva e Albert vivem situações parecidas: ambos são separados e estão prestes a encarar uma nova fase em suas vidas, já que suas filhas vão sair de suas casas para a faculdade. Eles se conhecem em uma festa e, a partir daí, começam a flertar e viver a sua história.

Tudo vai indo deliciosamente bem até que Eva descobre que sua mais nova cliente e amiga é a ex-mulher de Albert.

Não preciso usar o clichê “a partir daí a história se desenvolve” porque ela é atraente desde seu início. Os diálogos são maravilhosos e o humor inteligente permeia todo o filme.

E o grande destaque é a química perfeita que rola entre Julia Louis-Dreyfus e James Gandolfini. Seus personagens são de uma honestidade rara e as atuações apenas sublinham o renome que possuem por suas respectivas carreiras.

 

Sou fã de comédias românticas e assumo isso sem o menor constrangimento. Não dá pra viver só de filmes cabeções, dramas pesados, etc. Claro, estamos falando de bons filmes, veja bem. Assim como nos gêneros de suspense e ação, há um sem-número de besteiras produzidas nesse estilo – é preciso garimpar as preciosidades.

E no Brasil isto torna-se ainda mais difícil graças a estes títulos bisonhos que são dados aos filmes. Parece que o cidadão encarregado desta tarefa apenas olha o gênero, constata que é comédia romântica e tasca lá qualquer coisa que possa ser complementada com a palavra “amor”. É surpreendente a falta de criatividade e a insistência em sair do título original

Dito isto, “À Procura do Amor” é um filme delicioso, querido, inteligente, que nos garante boas risadas, graças ao carisma dos atores e aos ótimos diálogos, tão espertos quanto reais. São inúmeros os momentos em que podemos fazer um paralelo com nossos hábitos, como supervalorizar defeitos do outro e levar demais em conta a palavra de quem está do lado de fora, o que faz com que percamos o real valor das relações.

Contudo, há o outro lado, das boas coisas, de curtir os momentos simples, de valorizar o que de fato interessa. Os personagens já são vividos (na faixa dos cinqüenta anos), possuem trabalhos comuns, sem maiores pretensões, são discretos na sociedade, com famílias e problemas normais a qualquer pessoa, e protagonizam uma bela história, que recomendo com louvor.

 

Cinema brasileiro é de chorar

Não recebo um centavo para pegar no pé do cinema brasileiro, tampouco sou relevante ao ponto de propagar minhas ideias mundo afora.

Mas não consigo deixar de escrever sobre a mediocridade que permeia a sétima arte aqui no país. Como em outros casos, somos imitadores de muita coisa que vem lá de fora – leia-se EUA. Não apostamos em originalidade alguma e não aprendemos nada com nossos vizinhos argentinos, que fazem um dos melhores cinemas do mundo há muito tempo.

Faz tempo que a tendência no Brasil é fazer filmes engraçadinhos, ora de personagens saídos de novela da Globo, ora de franquias estúpidas que minha ignorância impede de tentar entender como conseguem alavancar audiência nas salas dos shoppings. A única explicação é a que vale pra tantos outros baixos níveis culturais: dinheiro não compra inteligência.

O que mais pira minhas ideias é o fato de que se investe uma bufunfa federal nessas papagaiadas.

E quando não estamos fazendo filmes metidos a comédia romântica de péssima qualidade ou “grandes dramas” com teor pornográfico, entramos numas de deturpar biografias de artistas nacionais que já se foram. É fatal: quando sai a possibilidade de levar às telas a história de algum ídolo brasileiro da música, sou acometido de um frio na espinha.

Arrematando, hoje li que um dos filmes brasileiros que vai estrear no final de semana chama-se “Copa de Elite”, uma obra que além de fazer sátira com outros “sucessos nacionais”, vai tirar onda com os argentinos, é claro – veja, quanta originalidade. Óbvio, trata-se de mais um lixo metido a engraçadinho produzido pela decadente indústria cinematográfica brasileira.

O protagonista, se não me engano, é cria daquele programinha da mulher do Bonner (um destes atores da interminável safra de stand up’s que somos capazes de produzir – e somos tão talentosos em criar atores de stand up comedy quanto somos em competir nas Olimpíadas de Inverno.
Na boa, que inveja dos argentinos! O cinema deles dá de relho no nosso uma duzentas vezes, a bola que eles jogam é 10 vezes melhor que a nossa. E, tenho certeza, não vivem nessa guerrinha “Brasil x Argentina” infantilóide e imbecil que alguns setores midiáticos daqui insistem em alimentar a todo momento.

Feliz Páscoa!

Antes do Oscar 2014

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Sandra Bullock, em “Gravidade”

No próximo domingo acontece a cerimônia de premiação do Oscar, o que faz com que todos os amantes do cinema voltem suas atenções ao evento.

Sim, é a premiação da indústria. Sim, o lobby rola solto nos meses que antecedem a premiação e os indicados. Sim, muitas escolhas não condizem com a real qualidade das obras. E sim, muitos trabalhos primorosos são simplesmente ignorados pela academia.

É o caso de um filme que, confesso, ainda não assisti, mas que tem me chamado a atenção já de antemão. “Quando tudo está perdido” (“All is lost”) tem Robert Redford como protagonista único, ele é um naufrago, na história que mostra a luta do marinheiro solitário pela sobrevivência, num filme praticamente sem diálogos, somente com atuação – diz-se que Redford é arrebatador.

Ao que tudo indica, a grande injustiça do Oscar deste ano é Robert Redford sequer estar entre os indicados na categoria de melhor ator.  Em suas próprias palavras, “acredito que tivemos pouca ou nenhuma promoção. Nossos distribuidores, não sei quem, não quiseram gastar dinheiro (na campanha) porque tiveram medo, talvez não acreditassem na oportunidade, não sei”.

Ainda com suas incongruências todas, o Oscar nunca perde a sua importância. Sequer são os vencedores que mais devem ser observados: o que mais merece nossa atenção – e que serve como uma ótima base de referências para bom cinema – são os indicados (ou até os injustiçados, como Robert Redford).

Vale fazer aquela lista de bons filmes para se assistir ali na frente, baseado nos indicados nas categorias de filme, direção, ator, atriz, coadjuvante. Acho que esse é o maior valor do Oscar e desse tipo de premiação, embora eu tenha mais interessa por premiações de outros festivais, sobretudo os europeus.

Mais um motivo para ser fã de Cameron Crowe: Elizabethtown

tudo-acontece-em-elizabethtown1Já escrevi artigos sobre a paixão que tenho pelos filmes de Cameron Crowe. Ele é um diretor pop, como costumo dizer, mas seus filmes – sempre com um quê de autobiográficos – me fazem ficar com um sorriso no rosto (quando não pasmo, que é o caso de “Vanilla Sky”).

Ontem assisti “Tudo Acontece em Elizabethtown”, de 2005, misto de comédia, romance e drama que é um abraço afetuoso em quem vê.

Orlando Bloom é Drew Baylor, um designer de calçados que trabalha na Mercury – maior empresa de esportes dos EUA – de onde é demitido após causar um prejuízo de 1 bilhão de dólares por conta de um modelo de tênis que se torna um fracasso de vendas e aceitação, um fiasco.

Na eminência de cometer suicídio, Drew recebe o telefonema de sua irmã dando a notícia de que seu pai, Mitch, falecera e de que ele teria de ajudar a família na organização da cerimônia de velório.

Drew ruma, então, para o interiorano estado de Kentucky. No vôo conhece aquela que irá mudar a sua vida, uma personagem encantadora, interpretada lindamente por Kirsten Dunst – a aeoromoça Claire Colburn. Chegando à pequena Elizabethtown, onde o pai de Drew é muito querido e ele próprio é tido como muito bem sucedido em seu trabalho, ele recebe todo o acolhimento e o carinho de seus familiares e amigos de seu pai, tendo de reorganizar sua vida a partir do fracasso profissional e dificuldades pessoais.

A partir daí, o filme de desenrola em situações de pura sensibilidade, acolhedoras.

Cameron Crowe me arrebatou mais uma vez e, como se não bastasse, a trilha sonora é ótima – o que também é sempre uma marca sua.

“Somos tão jovens” é tempo perdido

Somos_Tão_JovensFoi por um acaso que nesse final de semana assisti “Somos tão jovens” , filme dirigido por Antônio Carlos da Fontoura, que retrata os primórdios da carreira de Renato Russo e de parte do rock de Brasília. Nunca tive vontade de ver, mas por estar passando na TV, acabei encarando.

O filme é constrangedoramente ruim.  É caricato durante todo o tempo, mostra um Renato Russo prepotente e acima da média de todos que o cercam. Ele estaria com uns 20 anos na trama, onde é retratado como um jovem filho de classe alta, inconsequente e irresponsável.

Ao passo disso, o que mais é engraçado – no pior sentido da palavra – é que ele vive tendo insights geniais, em cada movimento da trama. Toda cena é cenário para que ele cite alguma frase, alguma história de uma de suas futuras músicas – como no momento em que ele explica que tem um casal de amigos que inspira uma composição sua. Parece um trabalho feito por alunos adolescentes de oitava série com o único objetivo de cumprir a nota e de deixar tudo muito explícito, sem que ninguém tenha que ter o esforço de pensar um pouco mais.

Além de caricato, o roteiro é fraco. As cenas se atêm muito tempo em passagens totalmente desnecessárias da história, ao passo que aspectos que poderiam tornar tudo mais interessante – como a formação da Legião Urbana – mal são apresentados.

Aliás, se a intenção fosse ser relevante, a história teria de ter passado por toda a vida de Renato e sua banda.

Concluindo, acredito que quiseram chamar mais a atenção pelo fato de os atores terem alguma semelhança física com os personagens que retratavam do que qualquer outra coisa. A história é irrelevante, o roteiro é mal construído, as atuações são caricatas, fracas, sem emoção e prepotentes.

Aos desavisados da obra da Legião Urbana, alerto: passem longe do filme, ouçam os discos e ponto.

Philip Seymour Hoffman foi um dos melhores

philip seymour hoffmanFiquei chocado ao saber da morte de Philip Seymour Hoffman, ator maravilhoso, um dos maiores de seu tempo.

Não se verá muitas homenagens por aí, como aquelas que tomaram conta das redes sociais após a morte do ator Paul Walker de “Velozes e Furiosos” e que encheram a paciência. Philip era um ator de verdade, na essência da palavra, mas não era o tipo herói, bonitão, com apelo comercial escancarado.

Suas aparições, desde as mais singelas, sempre me encantaram. Fazia personagens densos, mesmo quando menos perceptíveis, como o adorável enfermeiro de “Magnólia”. Foi capaz de arrebatar meio mundo, e também um Oscar de melhor ator, ao interpretar Truman Capote, em 2005. Atuação assombrosa.

Hoffman, tenho a impressão, conferia uma melancolia aos seus personagens, uma certa tristeza. Isso os deixava ainda mais apaixonantes.

Morreu, possivelmente, de overdose, sendo encontrado morto aos 46 anos, no banheiro de seu apartamento em Nova York, neste domingo. É algo que me comove, pois ninguém tem a capacidade de julgar ou imaginar quais fantasmas o atormentavam e o tornavam uma pessoa complexa, com seus problemas, neuras e tristezas. E isso só aumenta o encantamento em torno de seu trabalho e de sua personalidade.