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O som de Tulsa – a lendária banda que acompanhou Eric Clapton

No último dia 08 de dezembro, faleceu de câncer o tecladista Dick Sims. Ele estava com 60 anos e tocou com Eric Clapton durante quase uma década, ao longo dos anos 70.

Sims fez parte da mais lendária formação de banda que acompanhou Clapton, tanto em turnês como nas sessões de estúdio – e este acaba sendo o motivo principal do post: fazer uma merecida referência ao fantástico grupo que acompanhou o guitarrista durante a consolidação de sua carreira solo.

O baixista Carl Radle, o baterista Jamie Oldaker e o próprio Dick Sims formaram um híbrido de country e rock que ficou conhecido como “o som de Tulsa”. Ele foi apresentado a Clapton por Radle (que já estava com Eric desde o projeto Derek and the Dominos) e o trio, primeiramente, apoiou o guitarrista em seu disco de 1974 “461 Ocean Boulevard”.  Em comum, claro, o fato de os três terem nascido na cidade de Tulsa (Oklahoma, EUA).

Quando passaram a acompanhar Clapton, eles já constituíam uma banda concisa e entrosada que, além de tudo, possuía um som próprio, com personalidade ímpar. Somando-se Clapton em pleno auge criativo e em busca de novos rumos, o resultado só poderia ser a consolidação de uma carreira e de uma banda icônica.

Antes de ler a biografia de Clapton, eu sempre tive imensa curiosidade em saber quem eram os músicos que acompanharam o guitarrista em alguns de seus melhores momentos. Era possível ouvir uma sonoridade marcante, um suingue e uma ‘malandragem’ na forma de tocar que era comum em vários de seus discos daquele período. Aquilo de fato me intrigava, porque ouvia ali uma banda poderosíssima.

Um exemplo? Vá direto ouvir “461 Ocean Boulevard” – o maior hit foi “I Shot the Sheriff” , de Bob Marley. A abordagem reggae-country-rock tornou esta versão um clássico e mostrou toda e eficiência de uma banda que sabia jogar em todos os estilos.

Agora, fundamental como referência do Tulsa Sound – leia-se da sonoridade irresistível destes músicos fantásticos – é o clássico “Slowhand”, disco que consagrou Clapton e que emplacou algumas de suas melhores músicas. “Cocaine”, “Wonderful Tonight” e “Lay Down Sally” são deste álbum. Aqui nota-se mais uma vez uma banda com linguagem própria, que ao lado do gênio da guitarra conseguiu tornar o som destas canções inigualável.

Particularmente, considero que, mesmo Clapton tendo tido formações maravilhosas o acompanhando ao longo dos anos seguintes, nunca mais teve uma banda tão incrível. Ninguém consegue fazer soar “Cocaine” tão bem quanto estes músicos de Tulsa fizeram. Repare na condução da bateria, nas pausas ‘venenosas’ do baixo, na discrição dos teclados. O que dizer da malícia country de “Lay Down Sally”? O que temos ali é malandragem pura, não é para principiantes. Não se consegue soar assim por decreto ou apenas por vontade.

Esta banda, que tornou-se lendária ao acompanhar Eric Clapton durante tanto tempo e em discos tão importantes, cuja sonoridade até se tornou motivo de alcunha – Tulsa Sound – é uma referência obrigatória quando formos falar em grandes grupos que tivemos ao longo da história. Carl Radle faleceu ainda jovem, aos 37 anos, em 1980. Dick Sims se foi agora, com a mesma idade do único remanescente, o baterista Jamie Oldaker. Mas seus nomes estão marcados na história da música, naquela parte mais discreta, reservada aos músicos que acompanham e gravam ao lado de grandes artistas, emprestando sua genialidade através unicamente de seus instrumentos e de sua personalidade sonora.

O tecladista Dick Sims

O baixista Carl Radle ao lado de Clapton, em 1978

Eric Clapton em Porto Alegre

Ele não joga para a torcida. Não deixa brechas para que o público cante, tampouco improvisa falas no idioma local. Seu setlist é de canções que ele está afim de tocar naquele momento de sua vida – não se pode esperar uma coletânea de todos os seus incontáveis hits. Conclusão: se fosse diferente, não seria ele, Eric Clapton.

Mostrando ser um legítimo britânico, além de começar o show pontualmente, Clapton foi polido e discreto nas palavras. Mas quem, estando diante de um gênio da música que recebe há décadas a alcunha de “deus da guitarra”, vai querer ouvir discursos, brincadeiras, muitas luzes e parafernalhas mais? Seu show foi perfeito para os fãs; o canal dele com o mundo é sua música, e foi isto que pude presenciar na noite do dia 06: uma celebração musical.

Como era previsto, o repertório foi calcado no blues, dando espaço para longos e belos improvisos, não só dele, mas também de Chris Stainton (pianista), Tim Carmon (tecladista) – sendo que este último roubou a cena em vários momentos, com seus solos inspiradíssimos ao órgão hammond.

A primeira canção foi “Goin’ Down Slow”. Depois vieram “Key to the Highway” e “Hoochie Coochie Man”. Após “Tearin’ Us Apart”, Eric sentou-se e iniciou um set acústico com “Driftin Blues” e “Nobody Knows You (When You’re Down and Out)”. Nesta mesma linha vieram dois clássicos: primeiro uma de minhas preferidas, “Lay Down Sally” e, na sequência, uma surpeendente e maravilhosa versão de “Layla”, baseada na versão que ele gravou recentemente com o trompetista Wynton Marsalis, num clima blues, semelhante à versão imortalizada no seu Unplugged Mtv.

Definitivamente, não foi um show para quem queria agito ou fazer daquilo um mero evento onde o que mais importa é o ‘tumulto’. Infelizmente – algo corriqueiro aqui na província – uma grande parte do público estava totalmente desconectada com o que estava se passando naquele local, sem o respeito e a devida veneração que o momento merecia. Talvez devessem ter escolhido algum show em feira agropecuária para ir e não a apresentação de uma das maiores lendas vivas da história da música.

Justamente por ser um show para quem gosta da música do guitarrista, mostrou-se como sendo um grande equívoco ele ser realizado num estacionamento (Fiergs), cujas dependências em nada facilitam para que se aprecie um show deste perfil. Como se não bastasse, a localização e a estrutura precária do entorno são verdadeiras provas de resistência para quem vai.

Todavia, o que fica é a lembrança de que foi um tremendo show que Sir Eric Clapton nos proporcionou. Atentem para algo mágico: Clapton – que está cantando maravilhosamente bem – tem como característica preponderante improvisar todos os seus solos. Ou seja, ao assisti-lo, você está participando de um momento totalmente único, que nunca mais irá se repetir! Por exemplo… o solo de “Badge”, da arrebatadora ”Cocaine”… momentos de singular inspiração, que nunca mais se repetirão.

Clapton segue sua turnê pelo Brasil nos dias 9 (foi ontem) e 10, na HSBC Arena, no Rio de Janeiro, e no dia 12 de outubro, no Estádio do Morumbi, em São Paulo.

Setlist

“Goin’ Down Slow”
“Key To Highway”
“Hoochie Coochie Man”
“Old Love”
“Tearin´ Us Apart”
“Driftin’ Blues”
“Nobody Knows You When You’re Down and Out”
“Lay Down Sally”
“When Somebody Thinks You’re Wonderful”
“Layla”
“Badge”
“Wonderful Tonight”
“Before You Accuse Me”
“Little Queen of Spades”
“Cocaine”

Bis
“Crossroads”

Na espera

Bom pessoal, hoje o trabalho impede-me de tecer textos mais alongados. Amanhã é o grande dia, de ver Sir Eric Clapton, uma das lendas vivas das música de todos os tempos. Realização de um sonho. Sonho do tipo que alimenta a alma – esses não têm preço, ficam em nossa mente, retina, ouvidos e espírito, nunca se desfazem.

Ansiedade pura tomando conta!

Depois de tudo, prometo uma resenha sobre os detalhes do show e da grande noite!

Enquanto isso, deixo uma de minhas canções preferidas e que deve estar no set list do show de logo mais, “Nobody Knows You When You’re Down and Out“.

Esperando Eric Clapton

Pois bem. Chegou o momento de falar dele, o deus da guitarra, Eric Clapton. Ele já está em Porto Alegre desde ontem, para o show da próxima quinta-feira, dia 6.

Entre os anos de 2001 e 2002 uma leva maravilhosa de shows apareceu por estas bandas e fui em vários deles. Lamentei durante anos não ter ido somente em um. Justamente o de Clapton. Mas o universo conspirou a favor e, mesmo que à época ele tenha anunciado aquela como sendo sua última turnê de dimensões mundiais, alguma coisa fez com que o Sir mudasse de ideia e resolvesse novamente visitar estas terras terceiro-mundistas, sempre tão ávidas por espetáculos musicais de lendas que raramente aportam por aqui.

Se em 2001 Clapton fazia um apanhado de toda a sua carreira em seus shows, desta vez, guiado por seus recentes álbuns, o set list será baseado mais no blues, principalmente aquele lá dos primórdios, que sempre fez a cabeça do guitarrista. Contudo, ele irá visitar, sim, alguns de seus clássicos como Layla, Badge, Wonderful Tonight e Cocaine, além de músicas de sua carreira que ele não estava mais tocando – afinal, é uma apresentação singular, para poucos privilegiados, que poderão assisti-lo em uma oportunidade raríssima, ainda mais aqui no hemisfério sul.

Vejo da seguinte forma: será um espetáculo por demais divertido, bom de se ver, onde o deus da guitarra estará tocando aquilo que lhe convém, sem truques e sem números bajuladores. Este é o clima que eu quero sentir ao ver sua apresentação. Ele e sua banda felizes, num ar de celebração.

A sua autobiografia foi, talvez, o livro que mais me impressionou, cuja leitura de qualquer trecho sempre me comove por demais . Fiquei chocado, emocionado, até sem jeito, tamanha é sua franqueza dilacerante e sua sinceridade diante de tudo que já aconteceu. Além do mais, uma certeza: Clapton é um sobrevivente. Após ler sua história, confesso que houve uma espécie de proximidade inexplicável. Sei lá… ouvir, assitir aquele cara, cuja vida eu conheço de cabo a rabo,  inclusive com suas passagens mais bizarras e constrangedoras, além de suas tragédias pessoais, suas aventuras, suas glórias, seus vícios quase fatais, sua saída impressionante deles e sua volta à vida quando tudo levava a crer que ele iria sucumbir perante um destino sorrateiro… Isso tudo torna este senhor de 66 anos ainda mais próximo. É isso mesmo: digo que me sinto próximo de um Sir… Só a música e a literatura são capazes de proporcionar sensação tão louca, e não quereria nunca que isto fosse diferente.

A música de Clapton é uma das mais fundamentais em minha vida. Desde sempre sou fã incondicional de seu som, suas composições e sua forma de tocar guitarra. Ele é uma de minhas influências mais marcantes e indispensáveis. Está no alto do pedestal, sem dúvidas.

A música de Eric Clapton me emociona e sempre me emocionará.