Arquivo da categoria: Letra e Música

Raul do sertão, em inglês

Raul Seixas foi, sem dúvidas, um dos grandes compositores e letristas da música brasileira. Foi também um grande inovador, misturando ritmos nordestinos ao rock. Goste-se ou não, sua autenticidade artística é inquestionável, indo desde o genuíno rock n’ roll inspirado por Elvis até canções de lamentos, de questionamentos existenciais e de diversas interpretações possíveis.

Uma de suas mais belas obras chama-se “O Trem das 7” (1974). A canção remete ao sertão, bem como canta a letra. A narrativa prosaica é passível de inúmeras interpretações, mas de fato ela me encanta sem que para isso eu tenha que ‘viajar’ muito. A melodia é linda, marcante.

Pois em 1998 foi lançado um álbum póstumo de Raul, intitulado Documento, no qual haviam versões em inglês de clássicos do cantor, além de algumas inéditas menos expressivas. Os registros vocais foram resgatados de antigas gravações, no entanto, a parte instrumental foi gravada especialmente para este disco, o que é notável na qualidade sonora do trabalho.

E entre as canções está “Morning Train”, que é a versão em inglês de Raul para “O Trem das 7”. Desde a primeira vez que ouvi me apaixonei pela música. Ela conserva exatamente o arranjo original, com apenas algumas sofisticações a mais.

Me emociono demais quando a canção vai iniciando, no momento em que as cordas (violinos) envolvem a melodia e a letra. No entanto, o momento mais belo é quando canta “Quem vai chorar, quem vai sorrir? Quem vai ficar, quem vai partir?” (”Who’s gonna cry? Who’s gonna stay? Who’s gonna laugh? Going my way?”); aquele acordeon é simplesmente maravilhoso. Dá um clima bucólico, de proximidade, uma sensação de conforto.

E “Morning Train” segue. Imponente, crescendo… linda!

Meus bons amigos

Algumas canções tem o poder de nos transportar para um outro momento ou um para um mero instante de reflexão. Sou de uma geração que cresceu ao som de boas bandas brasileiras, aquelas que tinham algo a dizer, que vinham na crista da onda pós-ditadura, surgidas nos anos 80, consolidadas ao final daquela década e metade inicial dos anos 90.

Um destes grupos é o Barão Vermelho, que aliás, considero ser uma das bandas de rock mais genuinamente brasileiras.

A canção tão reflexiva, até um tanto raivosa e inconformada chama-se “Meus Bons Amigos”. Ela pergunta. Mas pode também ser apenas um chamado. Creio que qualquer pessoa, a certa altura, poderá perfeitamente ouvi-la e identificar-se com ela, mesmo que em parte.

Quem não se depara, vez ou outra, com uma realidade dura que nos põe frente a frente com um tipo de solidão causada pela dúvida, pelo sentimento de vazio, que nos leva a um “cair na real” duro e sem romantismo algum? Odes à amizade estão aí, aos montes. No entanto, muito mais realista e humano é perguntar onde estão meus bons amigos. Prefiro essas canções.

“Rosa”, de Pixinguinha, por Marisa Monte

A canção chama-se “Rosa”, uma das mais belas obras de Pixinguinha.  A letra é poesia pura, linda, aliada a uma belíssima e elaborada melodia sobre um compasso ¾.

Ganhou sua versão definitiva na voz de Marisa Monte. Para mim, aliás, ela é a maior cantora brasileira após a geração de Elis (essa sim, a maior de todos os tempos) e Gal. Marisa, além de escolher com classe o repertório de seus discos, cumpre um papel maravilhoso à música brasileira ao promover, não raro, o resgate de pérolas esquecidas de nosso cancioneiro.

Sempre me comovo ao ouvir “Rosa”. A poesia desfila, quando surge aquela cuíca, dramática, em meio à silenciosa e apreensiva harmonia… comovente.

Sem pânico

Para iniciar a semana, uma de minha canções preferidas do Coldplay, lá de seu álbum de estreia, Parachutes  – grande álbum, diga-se de passagem.  A música é “Don’t Panic”.

Acho que em alguns momentos é isso mesmo que temos que nos dizer: sem pânico. Lembrar, mesmo que seja apenas para nos acalmarmos, que “…vivemos num belo mundo”.

“Não é Céu”, de Vitor Ramil – o baixo como protagonista

No post de ontem falei sobre o disco Ramilonga, de Vitor Ramil. Aproveitando o momento, hoje comento sobre aquele que acaba sendo sua sequência, Tambong (2000). Bem como Ramilonga, a linha que segue este álbum é a da já conhecida Estética do Frio. No entanto, agora o leque está mais aberto – não apenas centrado nas milongas, mas em sonoridades mais cosmopolitas e letras mais universais.

A música que uso para ilustrar Tambong é a que abre o álbum, chamada “Não é Céu”. Além da bela melodia e letra, a canção tem uma sonoridade permeada pelo jazz, graças à bateria crua e principalmente pelo baixo maravilhoso do argentino Pedro Aznar (também produtor do disco). A linha composta por Aznar carrega de melancolia e de expressão esta canção. Aliás, já foi dito, à época do seu lançamento, que o contrabaixo contido em todas as músicas é um dos grandes responsáveis pela dramaticidade e melancolia do álbum – esta que é uma característica muito forte do som de Ramil, segundo ele próprio diz: “Sou viciado em bons baixistas. Desta vez foi Aznar, antes Nico Assumpção, André Gomes, Alberto Continentino”.

“Não é Céu” – Vitor Ramil

Letra e música: Harvest Moon (Neil Young)

Neil Young é um daqueles poucos artistas que está num patamar que o torna uma entidade acima de qualquer julgamento. Faz rock de verdade, de letras cortantes e de poesias delicadas. Além de ser politicamente engajado e de estar sempre envolvido com causas beneficentes, sua música se caracteriza por ter uma ligação muito forte com as pessoas do interior, do campo – por isso muitas vezes até se esquece que ele não é nascido nos EUA, e sim no Canadá.

Não raro suas músicas criam, através de determinados instrumentos, melodias e letras, cenários bucólicos da vida interiorana, com belos luares em épocas de colheita. Uma destas canções é “Harvest Moon”, do disco homônimo, lançado em 1992. É uma de suas mais belas obras e fala de um casal apaixonado após anos juntos, já com seus filhos e levando sua vida na fazenda.

 

Letra e Música – Oito Anos (Paula Toller)

A música pop brasileira, notadamente muito prolífera e diversa (nem sempre de qualidade), por vezes esconde composições que são verdadeiras pérolas, que merecem ser encontradas e lembradas. Paula Toller, cantora do Kid Abelha, já compôs um punhado de boas canções pop – ainda que alguns narizes tortos não lhe dêem a devida atenção.

Uma destas belas composições está em seu primeiro disco solo intitulado Paula Toller, de 1998, chama-se “Oito Anos” e faz alusão ao seu filho, Gabriel. Paula teve uma das melhores sacadas que já vi em uma música, ao citar na letra uma série de perguntas fofas, inocentes e, sobretudo, muito perspicazes feitas por seu filho e que foram anotadas ao longo do tempo. Prestando atenção, você irá notar que são questionamentos pertinentes e irresistíveis, que certamente muitos de nós já fizemos quando crianças e talvez sigamos perguntando ou respondendo até hoje.

Oito Anos

Por que você é Flamengo e meu pai Botafogo?
O que significa “Impávido Colosso”?
Por que os ossos doem enquanto a gente dorme?
Por que os dentes caem?
Por onde os filhos saem?

Por que os dedos murcham quando estou no banho?
Por que as ruas enchem quando está chovendo?
Quanto é mil trilhões vezes infinito?
Quem é Jesus Cristo?
Onde estão meus primos?

Well, well, well
Gabriel…

Por que o fogo queima?
Por que a lua é branca?
Por que a Terra roda?
Por que deitar agora?
Por que as cobras matam?
Por que o vidro embaça?
Por que você se pinta?
Por que o tempo passa?

Por que que a gente espirra?
Por que as unhas crescem?
Por que o sangue corre?
Por que que a gente morre?
Do qué é feita a nuvem?
Do qué é feita a neve?
Como é que se escreve réveillon?