Arquivo da categoria: MPB

Elis, pra seguir a vida

141-elisregina-falsobrilhanteUm dos mais belos trabalhos da maior das cantoras brasileiras, Elis Regina, chama-se Falso Brilhante – disco lançado no ano de 1976.

Num período em que a lógica de lançamentos e dos próprios shows era muito mais pessoal e particularmente ligada ao artista, o álbum veio após a bem sucedida turnê, homônima, que aconteceu de 1975 até 1977. Isso mesmo: somente depois do sucesso dos shows, surgiu a ideia de gravar o disco, sob os arranjos e a direção de César Camargo Mariano.

A emblemática “Como Nossos Pais” abre Falso Brilhante, seguida de “Velha Roupa Colorida”, ambas de Antônio Carlos Belchior.

Abaixo, a bela faixa “Quero”, composição de Thomas Roth.

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Os 70 anos de Milton Nascimento

E mais um grande nome da música chega aos 70 anos (continuo dizendo: me impressiona a quantidade de lendas que está chegando a esta idade!). Hoje é dia de celebrar o aniversário de Milton Nascimento, um dos maiores expoentes da música brasileira no mundo. Não raro, sua voz é considerada das mais belas que se conhece.

O mineiro, fã incondicional dos Beatles, lançou seu primeiro álbum, Travessia, em 1967, época em que o quarteto inglês já era um fenômeno consagrado. Contudo, Milton construiria um marco da MPB em 1972, com a parceria de Lô Borges e outros amigos contemporâneos: o fundamental álbum Clube da Esquina. Além das belíssimas músicas, o disco demonstra a riqueza musical de Milton – um artista completo, com influências que vão desde a MPB clássica, passando pelo jazz, rock e por grandes compositores como os já citados Beatles e Bob Dylan.

A riqueza, a beleza e a sensibilidade de Clube da Esquina são notáveis. Está entre os maiores discos da nossa música.

Ao longo de sua carreira, Milton chegou a uma invejável lista de parceiros musicais (e fãs ilustres) que inclui nomes como Wayne Shorter, Pat Matheny, Peter Gabriel, Gal Costa, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Elis Regina.

É dia de prestar reverência a Milton Nascimento, um dos artistas que ajuda a fazer a nossa música uma das mais ricas do planeta.

Os 99 anos de Vinícius de Moraes

Hoje Vinícius de Moraes completaria 99 anos de idade. O poetinha foi um dos mais fundamentais personagens da música e da cultura brasileira. Cimentou a carreira de grandes artistas nacionais ao promover com eles parcerias que se tornariam lendárias.

Destas parcerias a mais lembrada é a que manteve com Tom Jobim, de onde saíram vários standards de nosso cancioneiro. Contudo, também produziu pérolas ao lado de muitos outros, como o violonista e cantor Toquinho.

Da inspiração de Vinícius e Toquinho surgiu uma das mais belas músicas brasileiras, com alguns dos mais bonitos versos já escritos: “A Felicidade”.

É preciso homenagear quem deu tantas contribuições valorosas às nossas vidas.

Assim como o cigarro e o whisky eram companheiros onipresentes na vida de Vinícius, sua poesia é parte inseparável de nossa arte.

Caetano, Gil e os 20 anos do massacre

O ano de 1992 foi um ano agitado, lembro-me bem. Eu cursava a sétima série do primeiro grau e, embora a informação circulasse de maneira bem mais lenta e menos detalhada do que hoje, os fatos aconteciam numa velocidade intensa.

Há exatos 20 anos, o Brasil escrevia em sua história uma das páginas mais nebulosas. Na tarde de 02 de outubro de 1992, na Casa de Detenção, em São Paulo, aconteceu o massacre do Carandiru, onde 111 presos foram mortos pelas tropas de choque da polícia.

Obviamente, não entro no mérito de julgamentos e detalhes – estes encontramos aos montes pela rede.

O fato originou várias manifestações na nossa cultura pop, como o livro de Drauzio Varella, Estação Carandiru que deu origem ao premiado filme, Carandiru, dirigido por Hector Babenco.

Em 1993, Caetano Veloso e Gilberto Gil lançam em conjunto o álbum Tropicália 2. A principal faixa, “Haiti”, é um soco no estômago. A letra trata da segregação racial, da desigualdade tão presente em nossa realidade, da hipocrisia de políticos, da miséria na qual nos encontramos… Contudo, o fio condutor da poesia é o massacre do Carandiru.

Aliada a um instrumental tenso, a canção é um retrato único.

Alguns trechos ganham uma aura muito pesada com elementos que são somados à canção:

“E hoje um batuque um batuque com a pureza de meninos uniformizados de escola secundária em dia de parada” – aqui, a inserção da batida clássica do Olodum nada traz de euforia, ela é melancólica.

O assovio solitário no trecho “E se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual, notar um homem mijando na esquina da rua sobre um saco brilhante de lixo do Leblon” é ácido e incômodo.

 “E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo diante da chacina” –  ao som de um dramático e solitário violoncelo, é possível sentir o nefasto cenário da tragédia. Aliás, a frase “E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo” não é nada menos que genial.

Sempre me impressiona como a tensão da melodia e dos instrumentos se aliou tão perfeitamente à letra. A linha de baixo é carregada, densa, autoria de Liminha. O violão que conduz a música é desconfortável e viciante.

Por mais que se ouça e se interprete “Haiti”, ela sempre será passível de mais e mais abordagens. E nunca deixará de arrepiar.

E, para constar: Carandiru é um filme obrigatório.

Os 70 anos de Tim Maia

Se estivesse vivo, Sebastião Rodrigues Maia, o Tim Maia, estaria completando 70 anos no dia de hoje. (Aliás, que geração incrível; de semanas em semanas temos alguém chegando a esta idade ou próximo dela).

Não há porque discorrer longamente sobre a carreira e a vida pregressa do eterno síndico; suas histórias ímpares confundem-se com sua música. Sua biografia é irresistível e, portanto, recomendo altamente a leitura do livro de Nelson Motta, Vale Tudo – O Som e a Fúria de Tim Maia. Nelson foi um dos poucos amigos que Tim teve durante toda a vida – ele era um colecionador de desafetos. Tendo testemunhado grande parte das aventuras do cantor e pesquisado mais uma porção de fatos, escreveu sua biografia definitiva.

Aliás, é um livro recomendável para quem quiser entender um pouco do que era a cena musical nos anos 70 e 80 aqui no Brasil.

Se sua vida foi cheia de intempéries e histórias que se tornaram parte do folclore, sua música também não foi menos contraditória. Sou direto: a fase memorável de Tim é a dos anos 70. Durante os anos 80, sua carreira começou a definhar e ele acabou tomando aquele rumo menos inspirado pelo qual boa parte da MPB foi. Embora ainda tenha vendido bem e criado alguns bons hits, a nata de sua música reside na década passada. Os anos 80 foram de memoráveis loucuras, isto sim.

A fase Tim Maia Racional sempre é citada como um referencial do soul e do funk brasileiros. Embora ele nunca tenha permitido o lançamento destes discos após dar-se conta da falcatrua religiosa e espiritual na qual havia se enfiado, os trabalhos são verdadeiras pérolas.

Sou um fã absoluto da inovação que Tim proporcionou nos seus discos iniciais. No primeiro álbum, você dá de cara com “Coroné Antônio Bento” – uma mistura de rock com soul e baião. É deste mesmo disco o groove marcado de “Cristina”.

De seu segundo trabalho, vem  “A Festa do Santo Reis”, um dos seus grandes sons.

Enfim, é preciso sempre prestar tributo a este grande personagem. Graças também a ele que nossa música foi tão inventiva e audaciosa naquele período.

 

Aniversário de Marina Lima e uma linha de baixo inesquecível

Marina Lima

Quem está de aniversário hoje, completando 57 anos, é a cantora Marina Lima. Ela é uma das principais artistas nacionais remanescentes dos anos 80. Ao lado de seu irmão poeta, Antônio Cícero, escreveu alguns belos hits da nossa música pop, sempre antenada com as tendências sonoras modernas, indo num misto entre a MPB e o rock.

Hoje, claro, ela não possui a mesma projeção de outrora. Na verdade, é um grande feito ela ainda estar na ativa – após um período sofrendo de depressão, na metade final da década de 90, Marina perdeu muito de sua voz, algo que é bastante perceptível na sua atual forma econômica de cantar.

Em 1984 ela lançou a música “Fullgás” (pelo álbum homônimo). De autoria dela e de seu irmão, é, seguramente, uma das melhores canções pop da música brasileira.

Além de tudo, possui, talvez a mais bela linha de baixo da música nacional, uma das mais inspiradas que já ouvi. O autor? Arnolpho Lima Filha, mais conhecido como Liminha, ex-baixista dos Mutantes e uma espécie de produtor-midas dos anos 80 e 90.

Para quem tem alguma dificuldade em reconhecer o contrabaixo como elemento fundamental da música ou, mesmo, para quem deseja ver um exemplar de como um baixo pode soar sofisticado, sendo protagonista, mas de maneira totalmente consolidada com a canção, “Fullgás” é um dos mais bem acabados exemplos.

As vezes não é necessário ouvir todo um disco ou obra de um músico para que consigamos inspiração; as vezes, basta uma música.

“Fullgás” é uma aula.

Parabéns e, muito obrigado, Marina Lima!

Os setenta anos do maior de todos: Gilberto Gil

Hoje é aniversário de setenta anos de Gilberto Gil. Dos grandes referenciais da nossa música, ele é meu predileto. Na verdade, acho que ele é o maior, embora apenas diga isso para fins de uma possível organização de favoritos, afinal, não são poucos os nossos gênios musicais.

Gil é brasileiríssimo. Mas também passeia tranquilamente por uma linguagem cosmopolita. É ele quem consegue a mais legítima expressão reggae no Brasil. É ele quem, genialmente, declara que ‘o reggae é um xotezinho sem vergonha’ e demonstra isso na prática ao unir as duas linguagens e marcar um golaço.

Gil fez sambas lindos, de suingue incomparável e de letras complexas e pensantes. Suas harmonias e seu toque trazem à tona o grande músico que ele é.

Gil tem a sacada infalível de trazer o berimbau e a batida típica da capoeira à poesias inspiradoras e inesquecíveis como na seminal “Domingo no Parque” e da filosófica “Parabolicamará”.

Gil é audacioso; é inquieto, sempre buscou por outros caminhos demonstrar sua arte. Seus experimentalismos me soam superiores e mais bem sucedidos que os de seus semelhantes.

Gil tem a delicadeza e a inspiração para nos presentear com sensíveis pérolas musicais.

Gil é energia pura. É poesia, harmonia, melodia, pegada e delicadeza; é a música brasileira em seu ápice.

Gil é a música brasileira.