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Um achado na música de rua de Berlim

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Eu não sou muito fã de matérias curtas, sejam elas reportagens de jornal, revista ou programas de televisão (na TV fechada há muitos bons programas que duram míseros 30 minutos). Quando o assunto é bom, gosto que ele seja esmiuçado ao máximo.

Justo por isso, acabo pegando apenas aleatoriamente alguns bons programas musicais na TV – e ontem foi o caso.

Um dos quadros mais interessantes do momento em todos os canais musicais chama-se Música na Mochila (canal Bis), onde o apresentador Guto Guerra percorre cidades de todo o mundo em busca das peculiaridades musicais locais, entrevistando e interagindo com artistas.

No programa que assisti, foi apresentada a cena musical de Berlim, na Alemanha, mais especificamente sob o contexto dos inúmeros músicos de rua que lá se encontram aos montes. Fiquei simplesmente maravilhado com a variedade tanto de sons quanto de etnias e, sobretudo, de talentos magníficos e diferentes.

É um sopro de inspiração ver que a música deve ser algo livre de amarras, democrática, aberta a interpretações, releituras e criações como bem o artista deseja fazer. O engessamento musical é a morte de sua criatividade e da capacidade de improviso. Ao mesmo tempo, isso não quer dizer que ela seja campo aberto para a falta de talento e de esmero – justamente estas devem ser virtudes preponderantes, porém, sem as chatices que, por vezes insiste-se em impregnar.

Dito isto, fiquei empolgado com um grupo de músicos de rua, formado por instrumentistas de visual despojado, com instrumentos de origem erudita, que fazem adaptações de várias canções conhecidas, sobretudo do pop, e vão emendando uma na outra, ao tempo em que o público vai se aglomerando à sua volta e sendo totalmente absorvido pelo carisma da música e dos integrantes da banda.

Falo do Konexxion Balkon, um grupo formado por músicos espontâneos, com um espírito nitidamente aventureiro (musicalmente falando), e que vêm das mais variadas vertentes, como o jazz, o erudito, o pop e o folk.

Sobre seu começo, com muito bom humor em seu site eles dizem que quando você está falido e é um estudante, aí mesmo é que muitas vezes pintam as melhores idéias – referindo-se ao fato de terem encarado as ruas como a possibilidade de fazer música e sobreviver.

O despojamento não é somente visual, mas também musical, e eles não se amarram a convenções estabelecidas: tocam um Daft Punk usando o violoncelo como instrumento percussivo, ao som de instrumentos acústicos como o baixo, o piano e o acordeon, com todos os integrantes cantando, parecendo uma bagunça organizada, com uma intensidade solta que lembra o punk, porém, tudo com muito ritmo, feeling e soando maravilhosamente bem.

Bom, chega de tentar descrever.

Abaixo, dois vídeos da genialidade do Konexxion Balkon: no primeiro tocando o mega hit “Get Lucky”, do Daft Punk. Na sequência, um medley de hits da música pop dos anos 90.

No Youtube há inúmeros registros de suas performances.

Morre o violonista Paco de Lucia

ep006010_1E fico sabendo de uma triste notícia logo na manhã da quarta-feira: morreu, aos 66 anos, Paco de Lucia, violonista flamenco que é, talvez, a maior referência no gênero.

Ele passava férias em Cancún, ao lado de sua família e, segundo fontes, teria sofrido um infarto na praia, onde estava com seus filhos.

Paco de Lucia, além de ter construído uma carreira brilhante, tornando-se uma unanimidade técnica e estética do instrumento, fez participações colocando a força de seu violão nylon em trabalhos de artistas dos mais variados (quem não lembra do hit de Bryan Adams “Have you ever really loved a woman?” ?). Fez aparições também no cinema, como numa das cenas mais bacanas de “Vicky Cristina Barcelona”, de Woody Allen, onde ele é o violonista na cena em que todos estão apreciando um pequeno concerto.

Em breve, trarei mais da obra brilhante de Paco aqui ao blog. No momento, só é possível pensar na perda irreparável.

Como homenagem, a melhor música de Djavan, “Oceano”, que jamais seria tão bela se não tivesse o magnífico solo de violão de Paco de Lucia.

Emocionante.

José “Pepe” Mujica, presidente do Uruguai

“A vida não começa conosco, nem termina conosco.

Se deixarmos alguma semente que germine e ela se desenvolva sozinha, nossa parte está feita. O que acontece é que nós, seres humanos, somos arrogantes, amamos muito a vida. Na verdade somos um pouco de água numa onda muito maior.

Não se muda uma sociedade com um só indivíduo, é preciso muita gente.”

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Inspiração: a beleza de cenários urbanos abandonados

Pra quem se liga em design e fotografia, recomendo com louvor o trabalho de um artista que descobri apenas recentemente.

Francesco Mugnai, designer italiano, formado em Comunicação e Multimídia, apresenta em seu site uma série de materiais belos e inspiradores. Tem todo um conteúdo técnico e informativo para adeptos do assunto.

Porém, para um mero apreciador como eu, o que mais encantou foram as fotografias de lugares abandonados, que não fazem parte do típico cenário a que todos estamos acostumados.

A prática de sair por aí, clicando locais abandonados é chamada “Urbex” (urban exploration) e há, inclusive, sites especializados em trabalhar com esse tipo de fotografia, que estiliza e demonstra a beleza das ruínas modernas urbanas.

Tire um momento e aprecie as belas imagens no site de Francesco Mugnai. São, sobretudo, inspiradoras.

Algumas das tomadas mais incríveis são as de parques de diversões abandonados. Belas e, de certa forma, incômodas.

Sempre me impressionam as histórias e conseqüentes imagens das cidades abandonadas por motivo de catástrofes, casos de Chernobyl e Pripyat, no leste europeu, e que também são apresentadas na sessão de urbex.

Há as assustadoras imagens em meio à neblina, bem como de embarcações abandonadas, velhos moinhos, hotéis…

Gosto da valorização daquilo que não faz parte do óbvio, do que está abandonado, mas que possui uma beleza diferente, singela e pouco comum.

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38% dos universitários brasileiros são analfabetos funcionais. Alguma surpresa?

Uma matéria veiculada no jornal Correio do Povo de hoje trouxe um dado chocante mas que não é tão surpreendente: segundo dados divulgados pelo Instituto Paulo Montenegro (IPM) e pela ONG Ação Educativa, uma pesquisa apontou que 38% dos universitários brasileiros são analfabetos funcionais.

Criado em 2001, o Inaf (Indicador de Alfabetismo Funcional) é realizado por meio de entrevista e teste cognitivo aplicado em uma amostra nacional de 2 mil pessoas entre 15 e 64 anos. Elas respondem a 38 perguntas relacionadas ao cotidiano, como, por exemplo, sobre o itinerário de um ônibus ou o cálculo do desconto de um produto. O indicador classifica os avaliados em quatro níveis diferentes de alfabetização: plena, básica, rudimentar e analfabetismo. Aqueles que não atingem o nível pleno são considerados analfabetos funcionais, ou seja, são capazes de ler e escrever, mas não conseguem interpretar e associar informações.

É alarmante, mas apenas reflete o curso normal de uma nação que não possui o menor comprometimento com a educação.

No Brasil, por parte de quem manda, a educação jamais é vista como um propulsor do desenvolvimento e do melhoramento da qualidade de vida da população. A educação é, sim, vista como uma ameaça, uma possibilidade de aquisição de esclarecimento que pode fazer com que o povo tenha mais discernimento, por exemplo, na hora de… vender melhor um voto.

O tema vale muitas discussões, mesas redondas, debates, afinal, há também o lado da maior procura pelo ensino superior e a conseqüente queda na qualidade da graduação oferecida.

Todavia, há um viés cultural embutido nisso, que, a meu ver, independe da qualidade ou não das universidades: no Brasil, saber ler, escrever e interpretar um texto, é apenas mais uma etapa a ser ultrapassada enquanto se estuda. Português é uma disciplina passível de se gostar ou não (um absurdo!), tal qual fosse Biologia, Matemática ou Educação Artística.

Tá tudo errado – ler, escrever e interpretar texto não é algo opcional: é questão de sobrevivência. Português é ferramenta, não algo para se gostar ou não.

Não sei de onde vem esta idéia equivocada sobre a alfabetização, só sei que ela está devidamente impregnada em nosso modo de vida.

Certa vez na faculdade, antes de assistirmos um filme, a professora deu a opção da turma escolher entre legendado e dublado. A minha decepção em ser voto vencido e a opção ‘dublado’ ganhar foi algo talvez insignificante, mas que nunca esqueci – não por ser voto vencido, claro. Contudo, o sujeito estar em um ambiente universitário e ter preguiça de ler ou falta de curiosidade em aprender a ver filme de outra maneira… é realmente complicado. Só não mais complicado do que a professora dar a opção, quando simplesmente deveria impor o filme legendado.

Fonte dos dados: Correio do Povo (Porto Alegre/RS)

No México, a celebração em torno do Dia dos Mortos

Tenho profunda admiração pela cultura e pela história mexicana. Nesses dias em que celebramos a memória de quem já partiu – amanhã é dia de Finados – lembro-me de ter ficado fascinado certa vez ao ler sobre o feriado mais importante daquele país: o dia dos mortos (Día de Muertos).

Ao contrário do que estamos acostumados e do que se possa imaginar, não se trata de uma celebração funesta: entre os dias 31 de outubro e 2 de novembro os mexicanos fazem uma verdadeira comemoração, com o propósito de festejar a memória dos entes que já se foram. Bem, memória no modo de se dizer: segundo a crença popular, nos dias 1 e 2 os mortos têm permissão divina para visitar parentes e amigos. As pessoas dão as boas-vindas às almas que já partiram oferecendo-lhe flores, alimentos especialmente preparados, velas e incensos. É um período de paz e contentamento, e não de morbidez. As festas variam de região para região, mas em geral acredita-se que as almas das crianças venham no dia 1º de novembro, à noite, e a dos adultos no dia 2. Depois partem e só voltam no ano seguinte.

Várias iguarias são preparadas como forma de homenagear os que já se foram, sendo que as mais apreciadas e famosas são pequenas caveiras sorridentes feitas de açúcar ou de chocolate, decoradas com lantejoulas e marcadas com o nome dos parentes falecidos de cada família.

Enquanto que nos povoados as pessoas cantam, dançam e festejam nas ruas, nas cidades a celebração ocorre mesmo nos cemitérios.

Contudo, apesar do caráter festivo e de reencontro do Día de Muertos, o cunho religioso é preponderante nos rituais. Há um enorme ecumenismo de vertentes religiosas e crenças; como o México possui um passado riquíssimo de povos que habitavam a região antes da chegada dos espanhóis, a cultura dos antepassados está muito presente na identidade deste povo. Não é diferente na celebração dos finados: ocorre a mistura de elementos do catolicismo popular, com rituais típicos dos povos antigos, como os olmecas, os teotihuacanos, os maias, os zapotecas, os mixtecos, os toltecas e os mexicas.

Temas pesados – o Brasil não é para principiantes

As vezes fica difícil sobreviver mantendo um blog em meio à tanta informação pesada, suja, revoltante e desestimulante. Somente nesta semana me peguei em três, quatro oportunidades hesitando sobre qual rumo tomar nos posts. Então? Escrever sobre música, sobre cultura pop… coisas tão amenas e leves enquanto o mundo implode aí do lado de fora? Complicado…

Confesso que se a demanda de sujeira e de acontecimentos repugnantes fosse mais ínfima, seria também muito mais impactante, e iríamos nos debruçar, quem sabe, em longos e produtivos debates acerca de soluções ou melhoramentos. No entanto, acaba acontecendo uma certa desilusão, porque não vencemos mais nos indignar com tudo o que rola. Está se tornando banal. Sem contar que trazer a sujeira pra cima da mesa não é interessante, em geral, para quem lê. E está se tornando cansativo para quem escreve.

É notícia de que no Brasil R$ 50 bilhões esvaem-se todos os anos devido à corrupção, dinheiro suficiente para construir 57 mil escolas ou rede de esgoto para 15 milhões de domicílios. É notícia de que o presidente do Senado, José Sarney, usou um helicóptero da Polícia Militar do Maranhão para passear em sua ilha particular duas vezes neste ano. É notícia de que um bezerro ficou paralítico durante uma prova estúpida com um peão estúpido num dos eventos mais estúpidos do país, a festa do peão de Barretos, enquanto que uma maioria acéfala só tem bons olhos para o evento e péssimos ouvidos para a música e a cultura que lá impera. Não é notícia o descaso da mídia nacional e do governo federal para com o escândalo do soldado estuprado por outros quatro no quartel de Santa Maria em maio…

Sequer tenho ânimo em emitir qualquer opinião sobre qualquer um destes fatos, pois a quantidade de absurdos e atrocidades é tão grande que, se você resolve se ater a cada um deles, entra num baixo astral tremendo, sem muito ânimo para coisas mais amenas.

Enfim, para não dizer que não falei de flores, este texto que acabou virando um pequeno desabafo. E segue a vida, segue o blog em sua vibe mais leve e desimportante.