Arquivo da categoria: Música

Morre Mike Porcaro, baixista do Toto

mike_porcaroDe tempos em tempos tem dessas, de abrir as notícias e nos depararmos com alguma perda.

E, desta vez, foi das grandes, das que deixam um vácuo.

Mike Porcaro, 59, eterno baixista da banda Toto, nome onipresente em inúmeras sessões de estúdio de diversos artistas, morreu após uma longa luta contra a esclerose lateral amiotrófica, doença degenerativa do sistema nervoso.

Mike havia deixado os palcos em 2010 e desde então nomes poderosos como Leland Sklar e Nathan East o substituíam nas turnês da banda.

Aliás, foi através da página no Facebook de Nathan East que eu soube da notícia. Nas palavras dele, seu coração estava mais pesado pela perda de seu irmão, Mike, e ressaltou que havia sido uma grande honra substituí-lo.

Mike Porcaro é uma referência para qualquer baixista pop, como eu. Mesmo quem não conhece tão bem seu trabalho, tem sua influência, devido a incontável importância que um músico tão grandioso teve junto ao seu instrumento através de sua música.

R.I.P. Mike Porcaro.

Trinta anos de Engenheiros do Hawaii

250px-Enghaw_GLMHoje raramente ouço alguma música deles. Eu mudei, a banda mudou, o tempo passou… Mas jamais vou subestimar a importância que teve para mim.

Sou fã da formação clássica – Gessinger, Licks & Maltz. Enquanto as outras bandas brasileiras iam por um caminho, eles faziam um som progressivo, calcado sobre a melhor guitarra de rock brasileiro daquele período de final dos 80’s e início dos 90’s, ao som proeminente de um baixo com pitadas de Rush e os vocais com inspirações Floydianas que tão bem caracterizaram e tornaram único o som dos Engenheiros.

Pelos oito, nove anos de idade eu dava meus primeiros passos no contrabaixo e estava na fase maravilhosa de tirar músicas e mais músicas de ouvido. E faço questão de dizer que, naquele momento, Humberto foi uma das inspirações, pois aprender as suas linhas de baixo bem desenhadas, cheias de frases e mini solos consistiam num verdadeiro desafio.

Grande parte dos músicos, quando jovens, são atraídos para a música através do rock, devido à idade e à identificação com o som e as ideias.  Sorte, então, quando as bandas ouvidas são musicalmente boas.

Todo mundo têm histórias muito pessoais nessa relação de admiração por algum artista, e é isso que cria a empatia, a admiração e o respeito por um trabalho. A minha história com a banda vai além disso que citei, claro. Porém, se há algo que carrego comigo com orgulho é o fato de que a música dos Engenheiros fez parte da minha formação musical lá naquela fase crucial, lá no início.

Bandas pop dos 80’s quando se apresentam hoje, soam melhores

Curt Smith e Roland Orzabal

Curt Smith e Roland Orzabal

Eu gosto muito quando boas bandas de outra época, de sonoridade um tanto datada voltam à ativa, ainda mais quando é para revisitar o repertório de suas carreiras.

É o caso do Duran Duran, que outro dia vi por acaso num especial para a televisão. Uma banda pop que viveu o auge do sucesso mundial (e tudo que o acompanha) a partir de meados dos anos 80, com boas canções e com músicos acima da média.

A sonoridade dos 80’s tem essa característica nem sempre agradável de ser totalmente datada, pela grande quantidade de sintetizadores que eram utilizados, pela voz processada, pelo som grave e muitas vezes eletrônico da bateria e pelas guitarras e baixos plastificados. Sem contar que ninguém passou incólume ao padrão estético daquela década.

Contudo, a gama de pasteurização e preconceitos (muitas vezes relacionados com os excessos visuais daquele período) acaba impedindo que vejamos o que havia na essência destes artistas. E por isso me agrada quando eles retornam, seja em shows, Dvd’s, programas de TV ou especiais para a internet.

Se os músicos – agora coroas – estiverem em relativa forma para empunharem com competência seus instrumentos, parece que uma nova aura começa a acompanhar canções que já são conhecidas, mas que chegam envoltas numa embalagem mais clean, ao ponto de dar novo sentido às músicas.

O Tears for Fears, banda capitaneada por Roland Orzabal e Curt Smith, de enorme sucesso entre os anos 80 e 90 também é desta leva. Os dois sempre foram grandes músicos – particularmente sou grande fã de Orzabal, pois trata-se de um ótimo compositor e produtor, além de um cantor de bela voz e um guitarrista de mão cheia.

Nesta semana eles lançaram na internet um especial no qual revisitaram seus clássicos em comemoração aos 30 anos de lançamento do disco Songs from the Big Chair. É uma apresentação de cerca de 40 minutos, para uma platéia pequena. Ainda tocaram “Creep”, do Radiohead.

E a partir daí é que me veio toda essa reflexão.

A sonoridade do show e sua qualidade é o que dá mais sentido a estas reuniões.

Acho que mais artistas do pop daquele período poderiam se reunir. Claro, fundamental é que estejam em forma e que, obviamente, as canções sejam boas. Volto a dizer: numa abordagem mais despida de efeitos, mais crua e real, consequentemente acabamos descobrindo um outro lado, mesmo de músicas que já conhecemos.

Um achado na música de rua de Berlim

maxresdefault

Eu não sou muito fã de matérias curtas, sejam elas reportagens de jornal, revista ou programas de televisão (na TV fechada há muitos bons programas que duram míseros 30 minutos). Quando o assunto é bom, gosto que ele seja esmiuçado ao máximo.

Justo por isso, acabo pegando apenas aleatoriamente alguns bons programas musicais na TV – e ontem foi o caso.

Um dos quadros mais interessantes do momento em todos os canais musicais chama-se Música na Mochila (canal Bis), onde o apresentador Guto Guerra percorre cidades de todo o mundo em busca das peculiaridades musicais locais, entrevistando e interagindo com artistas.

No programa que assisti, foi apresentada a cena musical de Berlim, na Alemanha, mais especificamente sob o contexto dos inúmeros músicos de rua que lá se encontram aos montes. Fiquei simplesmente maravilhado com a variedade tanto de sons quanto de etnias e, sobretudo, de talentos magníficos e diferentes.

É um sopro de inspiração ver que a música deve ser algo livre de amarras, democrática, aberta a interpretações, releituras e criações como bem o artista deseja fazer. O engessamento musical é a morte de sua criatividade e da capacidade de improviso. Ao mesmo tempo, isso não quer dizer que ela seja campo aberto para a falta de talento e de esmero – justamente estas devem ser virtudes preponderantes, porém, sem as chatices que, por vezes insiste-se em impregnar.

Dito isto, fiquei empolgado com um grupo de músicos de rua, formado por instrumentistas de visual despojado, com instrumentos de origem erudita, que fazem adaptações de várias canções conhecidas, sobretudo do pop, e vão emendando uma na outra, ao tempo em que o público vai se aglomerando à sua volta e sendo totalmente absorvido pelo carisma da música e dos integrantes da banda.

Falo do Konexxion Balkon, um grupo formado por músicos espontâneos, com um espírito nitidamente aventureiro (musicalmente falando), e que vêm das mais variadas vertentes, como o jazz, o erudito, o pop e o folk.

Sobre seu começo, com muito bom humor em seu site eles dizem que quando você está falido e é um estudante, aí mesmo é que muitas vezes pintam as melhores idéias – referindo-se ao fato de terem encarado as ruas como a possibilidade de fazer música e sobreviver.

O despojamento não é somente visual, mas também musical, e eles não se amarram a convenções estabelecidas: tocam um Daft Punk usando o violoncelo como instrumento percussivo, ao som de instrumentos acústicos como o baixo, o piano e o acordeon, com todos os integrantes cantando, parecendo uma bagunça organizada, com uma intensidade solta que lembra o punk, porém, tudo com muito ritmo, feeling e soando maravilhosamente bem.

Bom, chega de tentar descrever.

Abaixo, dois vídeos da genialidade do Konexxion Balkon: no primeiro tocando o mega hit “Get Lucky”, do Daft Punk. Na sequência, um medley de hits da música pop dos anos 90.

No Youtube há inúmeros registros de suas performances.

Mike and the Mechanics ao vivo

O final de semana me brindou com ótima música, um show de primeira, pop de qualidade: uma apresentação ao vivo do Mike and the Mechanics passando no canal Bis. Valeu a semana.

A banda de Mike Rutherford – que nasceu como projeto paralelo ao Genesis, mas que acabou se tornando um expoente consistente de seu trabalho e que já tem lá quase 30 anos de carreira – é garantia de música pop bem tocada, bem expressada, com uma leveza não insossa e nenhuma possível chatice prepotente.

Rutherford é um lord. O cara é o dono do pedaço sem forçar a barra nem um pouco, é humilde, deixando a maioria dos solos para seu guitarrista, Anthony Drennan. Luke Juby se reveza entre os teclados e o baixo, que por vezes também é empunhado, claro, pelo próprio Mike Rutherford. Nas vozes, Tim Howar e Andrew Roachford.

Minha surpresa ficou por conta de saber quem é o baterista: ninguém menos que Gary Wallis. Quem assistiu os vídeos das últimas turnês do Pink Floyd (The Delicate Sound of Thunder e Pulse) irá se lembrar. Gary é o performático percussionista, que conferiu toda uma nova estética visual ao grupo inglês. Naquela fase pós-Waters, foi um dos três jovens músicos que deram outro ar à banda, ao lado do tecladista Jon Carin e do baixista Guy Pratt.

Gary Wallis é de uma classe, de uma categoria que muito me agrada. Daqueles músicos com os quais seria um prazer imenso tocar.

Mas o que vale é a banda toda, soando barbaramente. Grande trabalho de Mike Rutherford.

 

Abaixo um vídeo da minha canção preferida de Mike and the Mechanics, “Another Cup of Coffee” ainda com Paul Carrack nos vocais.

 

MTV fechando e um acústico que frustrou expectativas

acustico07A MTV encerrando as atividades no Brasil é um sinal dos tempos. Sinal de tempos bicudos, pois o canal pode até ser adquirido por uma igreja evangélica.

Você não pensou que eu ia dizer que se trata de um sintoma da modernidade, por conta dos novos meios de comunicação, não é?

Seria engraçado falar de modernidade num país como o nosso em que, mesmo com a internet chegando a confins improváveis, ficamos cada vez mais retrógrados e estupidamente conservadores, vide a ascensão de pastores picaretas e de bancadas cheias de falsos moralismos em nossos plenários.

Mas ok: não vou me afundar nesse lodo.

Pois como o canal musical está em suas derradeiras transmissões, a programação também foi alterada: volta e meia, por exemplo, passa algum dos Acústicos MTV – formato que, ao longo de duas décadas consagrou, alavancou ou reergueu carreiras de diversos artistas nacionais. Aliás, certa vez já falei de meus discos desplugados favoritos aqui no blog. Dia desses retomo o assunto.

No sábado à tarde a MTV reprisou o unplugged de uma das bandas mais importantes da nossa música – e uma das minhas favoritas: Os Paralamas do Sucesso.

E mais uma vez constatei: que acústico decepcionante.

Na época do lançamento, em 1999, eu não havia gostado. Passados alguns anos continuei não gostando. E hoje…

Talvez tenha se criado muita expectativa em torno de uma banda com uma carreira tão rica, com tantos hits, com um Herbert Vianna em sua plenitude e com uma formação oficial de trio intacta, coesa, com rara competência musical.

Aliás, é aí que já entra uma das minhas implicâncias com o disco: não me interessa se o Dado Villa Lobos é amigo da banda, parceiro, coisa e tal. Mas o que diabos ele somou ao tocar todo o show junto do grupo? Foi algo gratuito, deslocado. E principalmente, uma energia que em nada tem a ver com o Paralamas. Sem contar que, musicalmente, ele é simplório perto da riqueza e da variedade rítmica e melódica do trio.

Outros aspectos também desconfortam: o cenário enclausurado para uma banda grande, o visual uniforme em vermelho, numa combinação nula com a brasilidade de sua música. Falta classe, falta limpeza, falta Paralamas.

E o repertório também, parece não ter sido muito pensado – sensação que talvez tenha a ver com os arranjos.

Eu não sou crítico musical – sou músico. E sou grande fã dos Paralamas do Sucesso, gosto muito de sua carreira e até hoje ainda ouço seus discos. Ao lado dos Titãs, são os maiores. Aliás, tá aí: seus contemporâneos Titãs fizeram aquele acústico de 1997 que é um verdadeiro marco deste formato da MTV, um grande álbum. Como não esperar que o Paralamas fizesse algo, no mínimo, semelhante?

 

 

Dominguinhos

dominguinhos1Numa triste coincidência, no dia em que Renato Borghetti, um dos maiores nomes da música regional brasileira, completava cinqüenta anos, morreu Dominguinhos, ícone da sanfona, amigo pessoal e ídolo de Borghetti.

Ele foi o sucessor do rei do baião, Luiz Gonzaga, mas sua música levou muito mais significados e sonoridades consigo.

Dominguinhos aparentava ser alguém com quem se fazia amizade facilmente. Em qualquer registro seu, é possível ver um sujeito afável, carinhoso, calmo, com histórias para contar e lições para ensinar.

Ontem, após publicar meu texto em homenagem aos cinqüenta anos de Borghettinho, enviei um e-mail para ele (ou para o que eu cogitava ser sua assessoria) falando sobre a minha singela lembrança.

O próprio Renato me respondeu, agradecendo as palavras carinhosas, dizendo o seguinte ao final:

“Agora passei dos 50 e, segundo o Dominguinhos, é hora de trocar 10 notas rápidas por uma bem colocada…”

Horas depois, Dominguinhos se foi.