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Bandas pop dos 80’s quando se apresentam hoje, soam melhores

Curt Smith e Roland Orzabal

Curt Smith e Roland Orzabal

Eu gosto muito quando boas bandas de outra época, de sonoridade um tanto datada voltam à ativa, ainda mais quando é para revisitar o repertório de suas carreiras.

É o caso do Duran Duran, que outro dia vi por acaso num especial para a televisão. Uma banda pop que viveu o auge do sucesso mundial (e tudo que o acompanha) a partir de meados dos anos 80, com boas canções e com músicos acima da média.

A sonoridade dos 80’s tem essa característica nem sempre agradável de ser totalmente datada, pela grande quantidade de sintetizadores que eram utilizados, pela voz processada, pelo som grave e muitas vezes eletrônico da bateria e pelas guitarras e baixos plastificados. Sem contar que ninguém passou incólume ao padrão estético daquela década.

Contudo, a gama de pasteurização e preconceitos (muitas vezes relacionados com os excessos visuais daquele período) acaba impedindo que vejamos o que havia na essência destes artistas. E por isso me agrada quando eles retornam, seja em shows, Dvd’s, programas de TV ou especiais para a internet.

Se os músicos – agora coroas – estiverem em relativa forma para empunharem com competência seus instrumentos, parece que uma nova aura começa a acompanhar canções que já são conhecidas, mas que chegam envoltas numa embalagem mais clean, ao ponto de dar novo sentido às músicas.

O Tears for Fears, banda capitaneada por Roland Orzabal e Curt Smith, de enorme sucesso entre os anos 80 e 90 também é desta leva. Os dois sempre foram grandes músicos – particularmente sou grande fã de Orzabal, pois trata-se de um ótimo compositor e produtor, além de um cantor de bela voz e um guitarrista de mão cheia.

Nesta semana eles lançaram na internet um especial no qual revisitaram seus clássicos em comemoração aos 30 anos de lançamento do disco Songs from the Big Chair. É uma apresentação de cerca de 40 minutos, para uma platéia pequena. Ainda tocaram “Creep”, do Radiohead.

E a partir daí é que me veio toda essa reflexão.

A sonoridade do show e sua qualidade é o que dá mais sentido a estas reuniões.

Acho que mais artistas do pop daquele período poderiam se reunir. Claro, fundamental é que estejam em forma e que, obviamente, as canções sejam boas. Volto a dizer: numa abordagem mais despida de efeitos, mais crua e real, consequentemente acabamos descobrindo um outro lado, mesmo de músicas que já conhecemos.

Sobre as eleições 2014

A frase é de Winston Churchill: “a democracia é o pior regime que existe, exceto todos os outros”.

Sempre que me frustro após alguma eleição – e isso tem se tornado uma constante – acabo lembrando a célebre sentença do político britânico. Estar em um regime democrático é conferir e conviver com direitos iguais de escolha a todos os envolvidos e ponto.

Sim, fico pasmo pensando no que leva alguém a votar em determinado candidato – e aqui nem estou falando naqueles com alguma história e que aparecem entre os mais prováveis a serem eleitos, ou daqueles com menor representatividade, mas com fundamentos sérios e relevantes. Me refiro a candidatos que jamais poderiam passar perto da possibilidade de serem eleitos, que sequer poderiam postular um cargo.

Falo do absurdo que é candidato celebridade se eleger, tal como os extremamente conservadores, reacionários, abertamente homofóbicos, retrógrados, cujo centro do mundo é o próprio umbigo.

É triste e interessante notar que, à medida que a democracia no Brasil vai se tornando mais madura, com mais idade, nosso voto torna-se cada vez mais ultrapassado, conservador, cheio de preconceitos, na contramão do mundo.

Por mais que tentemos entender a mente de quem vota absurdamente mal, de qualquer jeito, como se fosse uma brincadeira, sem ter noção ideológica, do caráter e da capacidade de seu candidato, por mais que apareçam por aí os gaiatos descolados, que traçam variáveis antropológicas tentando enxergar na limitação intelectual algum tipo de voto de protesto, a explicação para tamanho mau uso da democracia, tal nós brasileiros fazemos, é muito fácil: falta educação.

Infelizmente, tudo de ruim neste país tem a mesma origem: nossa educação é péssima. E o mais trágico é que os candidatos sequer defendem mais essa bandeira. Tornou-se um círculo vicioso, é um tema que não traz votos e tampouco interessa às pessoas, imersas em sua ignorância e mais preocupadas em ditar a vida dos outros, como por exemplo, interferir no direito de cada indivíduo de ter a opção sexual que bem entender.

Retomemos a frase de Churchill: ótimo, todos temos direitos iguais de voto, tudo lindo e maravilhoso. O problema é eleger políticos que, além de inaptos intelectualmente vão justamente na contramão da ideia de democracia, de igualdade e que querem impor suas ideologias retrógradas e conservadoras a todo custo.

Idiota mesmo sou eu, que ainda insisto no tema da educação.

Música é mar, letra é embarcação

Outro dia, assistindo um documentário sobre Marina Lima, gostei muito de uma expressão que ela usou, ao falar da construção da canção: “música é mar, letra é embarcação”.

É interessante como várias reflexões nos vêm à mente a partir desta frase. Começa pela importância (nada mais do que a real importância, diga-se de passagem) que uma artista notadamente pop dá para a música em si – resultado de melodia, harmonia e ritmo.

Veja a grandeza do elemento música e todas as suas possibilidades, desde a simples opção entre o uso de um acorde ou outro. Os emaranhados maravilhosos de harmonias sofisticadas de um Tom Jobim; a genial música dos Beatles – muitas vezes simples harmonicamente, porém sempre original melodicamente e, acima de tudo, não menos sofisticada.

Por outro lado, um dos aspectos mais inexplicáveis da música é o ritmo e seu poder de nos atingir simplesmente por meio do uso bem sacado de notas e pausas, através de tempos e compassos.

Sem bancar o chato com uma linguagem técnica enfadonha: o que leva você a bater o pé ao acompanhar um ritmo? Não há explicação. Apenas a constatação de que é algo muito forte, intenso e puro. Tanto é que, não raro, uma criança que mal sabe dar seus primeiros passos, que tampouco consegue falar uma palavrinha sequer, começa espontaneamente a se sacolejar ao som de uma batida rítmica que lhe agrade.

Simplicidade é diferente de simplório: penso em tantos jogos harmônicos intrincados de composições um tanto pretensiosas que muitas vezes nada possuem de musicais e encantadoras, bem como notas e mais notas que no fim parecem apenas um mero desperdício. Isto é ser simplório, é subestimar a arte.

De vez em quando se utiliza a expressão “na música, menos é mais”. Ok, funciona em muitos casos. Porém, a grande graça da coisa é que não existe uma fórmula de fato. Em muitas ocasiões, mais é mesmo mais e pronto. Mas quem sabe dizer exatamente o que é esse mais?

Acho que o que define tudo é a existência de um bom senso estético. Existe a hora certa de respirar, de pulsar, de criar tensão, de simplificar, de complicar, de aliviar. Mas, como já se disse que não existe fórmula pronta, o bom senso e a noção de estética é que serão preponderantes no resultado final de uma expressão musical.

O grande Nico Assumpção já sentenciou sabiamente: você estuda, ouve, decora padrões, fórmulas, organiza clichês, cria técnicas, se debruça sobre teorias, etc. Na hora de tocar, coloque tudo isso de lado e preocupe-se em fazer música.

Que sacada perfeita! É uma diretriz que procuro sempre levar comigo. Isso é enaltecer a arte, dar a ela o seu devido e inestimável valor.

O fato de conhecer um punhado de informações a mais não fará ninguém mais músico do que um sujeito que, sem nada disso, faz um som maravilhoso, sincero e cheio de ritmo lá num bar qualquer de Cuba, por exemplo.

A música não é algo gelado, enquadrável. David Gilmour dizia que era preciso saber descompactar, referindo-se à capacidade de jogar levemente com o andamento da canção, baseando-se nas suas dinâmicas.

A música é arte, é maior do que qualquer pretensiosa explicação lógica. A música é mar.

E ainda nem falamos das embarcações…

Um certo distanciamento da música

Quando eu era adolescente e esporadicamente ia de carona no carro de meu pai, não entendia muito bem porque ele ouvia rádios que rodavam pouca ou nenhuma música, com muita conversa, debates e notícias.

Pelos 17 anos, um dia me surpreendi ao perceber que meu professor de música era adepto das mesmas rádios de notícias, no velho estilo AM, sem nada de programação musical. Eu nunca esqueci aquela passagem.

Pois à medida que fiquei adulto, adquiri hábito semelhante. Quando estou sozinho em meu carro, geralmente ouço rádios em que haja conversas, notícias, debates e não música.

É um traço bastante peculiar de uma personalidade, mas que, como todas as pequenas coisas, talvez diga muito, bem mais até do que eu mesmo consiga entender.

Um rádio ligado, com pessoas falando, dá uma sensação de companhia – acredito que muitos concordem com isso. Acho também que se deve ao fato de não haver tantas rádios com programações musicais interessantes por aí. Obviamente que existem as nobres exceções. E sim, sempre há os dias em que coloco minhas músicas no meu pendrive e faço delas minha companhia de viagem.

Acredito que por estar imerso em um universo musical desde quando era criança, por sempre ter estudado, e até por algumas coisas que simplesmente enchem o saco – como em qualquer outra profissão – por mais que a música pareça algo agradável, há horas em que prefiro me desligar disso e ouvir um papo furado qualquer sobre futebol, por exemplo.

É o mesmo sentimento que por vezes me faz evitar programas musicais na televisão. O envolvimento com a música como sendo meu trabalho, a convivência com colegas de profissão, as conseqüentes decepções e frustrações, mudanças de planos, acho que tudo isso fez com que em certos momentos eu apenas queira distância da arte que eu tanto amo. E não é um enfado em relação à arte em si.

Há muito mais aspectos envolvidos numa relação sincera com a música que qualquer explicação mais óbvia possa querer esclarecer.

 

Lá, onde o Dia do Professor é uma data triste

Dia do Professor nunca é uma data plena de bons pensamentos. Lembro de todos os professores que já tive ao longo da vida e vejo esse período como um dos mais importantes de nossa passagem pelo mundo.

Contudo, não há como não pensar na desvalorização que o professor tem neste país.

Os governantes tentam vencer o professor no cansaço, e o fazem por meios baixos, pagando mal, jogando-os para serem devorados pela sociedade. E a sociedade, perdoe-me, é a maior vilã dessa incompreensível diminuição da mais nobre das profissões.

É assim que pensamos: tornar-se professor passou a ser uma coisa menor.

Numa sociedade em que o “ter” é valorizado em detrimento do “ser”, não se pode esperar que se olhe de maneira séria para a questão dos professores.

Desgraçadamente, somos um país de classes sociais emergentes apenas pelo aspecto do consumo. Intelectualmente, continuamos no limbo. Não precisamos pensar – compramos tudo em prestações e resolvemos nossa vida com a ostentação de nossa ignorância via redes sociais.

Vou eu me preocupar com um professor de ensino básico enquanto posso tranquilamente jogar lixo pela janela do meu carro, antes de dobrar a esquina sem ligar a seta, ouvindo música de péssima qualidade a todo volume, sem me importar com o incômodo que proporciono?

Alguém acha que vou comprar uma causa furada dessas enquanto meu filho freqüenta a faculdade de medicina, onde ele tem uma turma da pesada, com a qual outro dia ele participou da aplicação de um trote constrangedoramente cruel aos calouros?

Enquanto esperarmos dos governantes que eles deem um jeito na valorização dos professores, nada irá acontecer. A classe política brasileira é falida, é podre, trabalha somente em benefício próprio e dá gargalhadas do resto.

A sociedade é passiva, alienada e individualista. E vem se acostumando a vencer pelo material, não pelo mérito.

Não há nada mais triste do que um país que negligencia seus professores. E este é o nosso retrato. A população que pouco se importa com a educação, é uma população vazia, triste, insípida, sem graça, sem ideias e sem futuro. Anda apenas no embalo da manada, prefere ir ao shopping ao invés de frequentar uma feira do livro.

O cenário apenas irá mudar no dia em que a valorização do professor e da educação for encarada como algo imprescindível, do qual depende nosso futuro e nossa evolução, mesmo que para isso tenha que se erguer bandeiras e bater de frente como nossa maior tragédia natural – a classe política.

 

 

 

 

 

A involução do futebol brasileiro

Ronaldo Nazário, dono da empresa de marketing esportivo 9ine, é comentarista dos jogos da seleção brasileira na Globo. Entre os clientes da 9nine estão Leandro Damião, Lucas e o principal deles, Neymar. Ontem, no jogo com a Inglaterra, Ronaldo elegeu Neymar, seu cliente, como sendo o destaque do jogo, fato que não condiz com a realidade: se houve destaque pelo lado brasileiro, chama-se Oscar.

Ontem, a seleção teve outro desempenho pífio em jogo amistoso. Hoje Neymar se apresenta no Barcelona. A atenção da mídia está toda na capital catalã. No Brasil não se fala mais do time, da equipe, da seleção brasileira. O futebol brasileiro foi personificado em um único indivíduo: Neymar, que vive muito mais de marketing do que de bola.

Enquanto houver essa inversão total e absurda, que acaba gerando a desvalorização do item mais básico do jogo coletivo – a equipe – a seleção brasileira de futebol irá figurar num obscuro segundo pelotão mundial do esporte.

No futebol, o Brasil está em processo de involução, nada contra a maré.

Em tempos de enaltecimento do futebol espanhol e do iminente e impetuoso jogo com o qual os germânicos assombram o mundo, reafirmando todos eles que a coletividade aliada ao talento e à ordem são imbatíveis no jogo de bola, no Brasil se reduz tudo a uma única personalidade, menosprezando a nova velha ordem mundial do esporte coletivo, que de tempos em tempos é re-ensinada por aqueles que evoluem.  Não é o caso do Brasil.

Na política brasileira, é preciso honrar o perfil de picareta

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O rei da soja

Não basta que nossos parlamentares acumulem fortunas mediante seus caríssimos vencimentos, que tenham auxílio moradia, auxílio combustível, auxílio pra compra de terno, auxílio isso, auxílio aquilo, auxílio zona do meretrício… Não basta que, não satisfeitos com toda essa barbadinha, ainda façam de seu posto uma ponte para encher os bolsos mediante os mais asquerosos meios de desvios e falcatruas a que estamos acostumados. Não, não basta.

É preciso que a Comissão de Direitos Humanos e Minorias, da Câmara dos Deputados seja presidida por Marco Feliciano (PSC-SP), um pastor estelionatário, cujos vídeos de arrecadação de dinheiro junto aos seus seguidores deixam qualquer um de boca aberta, e é, além do mais, um sujeito comprovadamente homofóbico e preconceituoso – o que ficou muito claro após declarações polêmicas contra negros, homossexuais nas redes sociais e em seus cultos.

É preciso colocar a raposa a cuidar do galinheiro.

É preciso que a Comissão de Meio Ambiente do Senado seja comandada pelo mega-empresário e um dos magnatas da soja no Brasil, o senhor  Blairo Maggi (PR-MT) – um dos maiores desmatadores de florestas que o país já viu e que somente perdeu o posto de “Rei da Soja” para seu primo, Eraí Maggi Scheffer, considerado o maior produtor de soja do mundo.

É preciso, além de matar a população aos poucos e garantir a falta de educação, debochar deslavadamente de todos.

É preciso não se dar sequer ao trabalho de fazer uma média sem vergonha junto ao povão.

É preciso honrar, na cara dura e deslavada, o estereótipo do picareta – perfil indispensável a qualquer político brasileiro.