Arquivo da categoria: Vibrações

Trilhas sonoras para nossas vidas

Se criássemos mais trilhas sonoras para nossa vida, seríamos melhores.

Ultimamente, ando pensando nisso.

Criar listas de músicas que combinem com certo ambiente, lugar, ocasião, clima ou emoção pode ser um prazer que nem todos sentem. Mas em algum momento, quem monta uma coletânea de músicas invariavelmente pensa em quais canções se conectam mais ao seu propósito, embora, claro, em alguns casos isto possa resultar em uma lista guiada pelo critério da mediocridade.

Mas pensemos como pessoas civilizadas.

Fazer uma seleção de músicas escolhidas com carinho e que tenham um fio condutor interessante, se constitui em um exercício de sensibilidade, até mesmo naquela playlist mais quente, que toca antes de ir pra balada.

Há outro viés que é fruto de sensibilidade coletiva – uma das coisas que mais faz falta hoje em dia. É um critério que, muitas vezes, uso quando preparo as minhas seleções para rodar, principalmente no carro. Você escolhe, obviamente, as músicas de acordo com seu gosto, mas leva em conta o gosto daquela ou daquelas pessoas que estão com você. É a agradável sensação de não se fechar somente em seu mundo.

Experimente. Pode dar na trave, pode exigir um pouco mais, porém, é bom. Diferentemente da ditadura de um carro com som estourando tímpanos, servindo apenas para bradar o mau gosto e a idiotia de um único indivíduo, é tornar a música algo comum a mais pessoas, fazer com que ela cimente laços, traga um leve bem-estar.

Comece a prestar atenção nas suas variações de humor, nas instabilidades do cotidiano, nas nuances das estações do ano, nos estados de espírito, nos traços de quem ouve música com você. E crie trilhas sonoras.

Se criarmos trilhas sonoras para nossa vida, tenho certeza de que seremos melhores.

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O conforto de estar em casa

Finalmente estou em casa. Óbvio, não é o tipo de assunto que interessa aqui no meu blog. Mas digo isso meio que para justificar minhas parcas postagens dos últimos dias. Na verdade, passei todo o feriadão de Páscoa no oeste do Paraná, por motivo de shows.

Ser músico tem dessas de ficar longe das pessoas amadas em datas que são justamente de confraternização.

Escrevo também para refletir.

Só posso dizer que, após dias em hotéis e horas e mais horas na estrada, nada paga o preço de estar novamente em casa. Aliás, sejamos francos: embora a minha viagem fosse de trabalho, podemos relacionar um ponto em comum que ela possui com as viagens de turismo. Vocês já devem saber do que estou falando… Isso mesmo: como é bom voltar ao lar e ao convívio daqueles que nos são fundamentais.

Embora tenhamos de fazer coisas para dinamizar a vida e torná-la interessante, ela ainda é feita de pessoas e de relações. Nada substitui o carinho, o abraço e o sorriso daqueles que amamos. Nada suplanta a energia que isso nos tráz. Nada é mais importante do que se sentir acolhido.

E isso se refere não só à família, mas também aos amigos, mesmo aqueles com os quais falamos mais por meios virtuais.

Nada melhor do que estar em casa, mesmo que esta casa se divida em duas, três, como é o meu caso.

Nestas ocasiões, sempre lembro da letra de “Time”, do Pink Floyd. Para ser mais exato, o verso final. Este trecho me passa um conforto e um acolhimento tão grande, tão bom, que sempre penso nele quando volto para casa, após algum tempo.

Home, home again
I like to be here when I can
When I come home cold and tired
It’s good to warm my bones beside the fire
Far away across the field
The tolling of the iron bell
Calls the faithful to their knees
To hear the softly spoken magic spells

Envolver-se com a canção

Há dias em que tenho vontade de falar somente sobre alguma canção. Como vivemos tempos onde tudo é urgente e facilmente degradável, ainda penso que chegará o momento em que voltaremos a prestar mais atenção em canções e álbuns, dando-lhes assim o verdadeiro valor.

Ontem estava conversando na internet  com um amigo sobre um álbum conceitual do Pink Floyd – Animals, que aliás está no post anterior. Durante o final de semana, falando com outra pessoa sobre álbuns do Floyd mais fáceis ou mais difíceis de ouvir… momentos que me levaram a refletir.

Quem é fã de bandas assim, com uma obra mais concisa e profunda, com certeza não saiu apreciando o som logo de cara. Você pode até “bater” com as músicas à primeira audição. Contudo, o que vai fazer você se apaixonar por uma canção ou disco é o processo. Não deixa de ser uma sedução, comparável até a um grande amor. Você pode sentir, ficar “caído” à primeira vista, porém, o que fará aquilo se tornar uma relação duradoura e cimentada é a atenção e a dedicação que você irá dispensar àquela pessoa.

Músicas são assim. O que é descartável entra e sai de nossa vida sem fazer alarde, tampouco deixando marcas.

Se você for ouvir músicas dos Beatles – não as mais lindamente corriqueiras, mas as mais densas, cheias de interpretações e detalhes – você poderá ter belíssimas surpresas. Você não ‘dispensa’ tempo para ouvir uma canção que exige atenção e carinho. Na verdade, a bela canção é que lhe oferece a oportunidade de você a conhecer melhor, de se sensibilizar com a sua história, sua melodia, seu conteúdo muitas vezes não óbvio.

Há que se aproveitar as oportunidades que as boas músicas nos oferecem, de que as conheçamos melhor. Há que se aproveitar a chance de se envolver para sempre com elas.

As boas canções nunca nos deixam. Elas ficarão para sempe conosco. É algo mágico e inexplicável.

Quando ouço “Golden Slumbers/Carry That Weight” sempre me emociono muito. “Certa vez havia um caminho para casa… durma, adorável, não chore… eu lhe cantarei uma canção de ninar”. A linda poesia comove. Sonhos dourados enchem seus olhos, sorrisos lhe acordam quando você se levanta”. E então, talvez condizendo com o momento turbulento que os Beatles viviam, Paul canta Garoto, você irá carregar esse peso por um longo tempo…”.

O que emociona é um misto indescritível, daqueles que fazem uma grande canção. A poesia, a mudança cortante e forte da letra, da música, tudo isso numa das mais belas melodias já compostas por eles, que sempre serão os melhores em compor melodias.

Cães, gatos e convívios

Sou adorador de animais de estimação. Estou entre aqueles que pensa que a vida de uma pessoa se torna muito melhor através da convivência com um bichinho andando pela casa ou pelo pátio. Desde que me conheço por gente, tive contato com eles – meus avós moravam no interior, portanto havia criação de diferentes tipos de bichos. E, claro, desde criança sempre convivi com gatos.

Mesmo que nunca tenha tido um, também sempre gostei de cães. Francamente não consigo ver com maus olhos qualquer uma destas criaturas, embora sempre tenha tido total predileção pelos felinos, com os quais também sempre me entendi muito bem. Mas eis que recentemente adotamos um pequeno cão, que estava abandonado, e como não poderia ser diferente, hoje ele faz parte de nossa família, se adaptou perfeitamente e é muito querido num lar que sempre foi de ‘gateiros’.

Pois bem. Com a chegada do Tom, o cachorro, pude confirmar algumas nuances e diferenças entre cães e gatos que eu já sempre imaginei existirem, bem como observar o que leva as pessoas a gostarem de um ou de outro. Também passei a ler alguns estudos sobre o assunto, como artigos de veterinários e, por exemplo, este estudo feito pela Universidade do Texas, com 4.500 indivíduos, no qual os envolvidos responderam vários questionamentos e, ao final, concluiu-se que as pessoas que gostam mais de gatos são mais neuróticas, mas possuem uma maior facilidade de adaptação – são vanguardistas e aceitam idéias novas de forma mais rápida. Já as pessoas que curtem mais os cães tendem a ser mais extrovertidas e simpáticas. Os estudiosos do assunto acham que estes traços combinam exatamente com o perfil de ambos os animais, já que cães são mais extrovertidos e brincalhões, enquanto que os gatos são mais neuróticos, mas se adaptam facilmente à novas situações. Todavia, isso não quer dizer, obviamente, que um dono não possa ter âmbos os animais em seu convívio.

A leitura destes estudos me fez constatar algumas questões interessantes. As pessoas, de modo geral, se adaptam muito mais facilmente ao convívio dos cães que dos gatos, até porque, muitas vezes, adotam um cão pensando em ter o mesmo retorno afetivo que teriam de um gato. Tal qual os indivíduos, estas diferentes espécies também possuem suas personalidades específicas.

O cão é bastante dependente, precisa de atenção, brinca com o dono ao primeiro sinal, é mais submisso. Por outro lado, o gato é um sujeito independente; é ele que escolhe quando vai brincar, é ele que escolhe quando quer ir no colo, quando quer carinho. É ele que opta se vai dar atenção a um reles mortal

Faço uma analogia dos dois, cães e gatos, com o perfil generalizado das diferenças entre homens e mulheres. O homem, tal qual o cão, é mais direto, joga aberto. Da mesma maneira, é por vezes abobado, totalmente dependente de atenção, demonstra tudo o que se passa em sua mente à primeira vista. A mulher, assim como o gato, é misteriosa. Não demonstra tudo o que pensa, é enigmática. Tampouco consegue-se conquistá-la quando bem se entende. E, bem como acho as personalidades femininas muito mais interessantes do que as masculinas (de um modo geral), penso isso também dos gatos em relação aos cães. O fato de você ter de seduzi-los, lidar com suas nuances de personalidade e suas mudanças de humor, faz com que os bichanos sejam figuras interessantíssimas. Os cães são mais companheiros para toda hora, bem como acontece com bons amigos.

Por isso tudo, também permito-me dizer, num parêntese, sem nenhuma conotação sexual, mas sim psicológica, que há homens com perfil mais feminino, bem como mulheres com traços mais masculinos em sua forma de pensar – há inclusive estudos que já abordaram esta questão. Com os animais? Acho que acontece o mesmo: há cães que possuem traços da personalidade do gato; e há gatos maluquetes que têm espasmos de comportamento canino. Mas acredito serem apenas momentâneos, em âmbos os casos.

Se você chega em casa, após ter saído durante meia hora, seu cão lhe receberá como se você estivesse regressando de um longo período em outro planeta, talvez até com direito a fogos e uma banda tocando. Se você ficar longe de casa por um mês e regressar ao seu lar, pode acontecer de o gato apenas lhe lançar um olhar blasé, perigando até dar de ombros, como se nem tivesse notado a sua ausência.

Já foi dito que o pensamento de um cachorro é: “ei, essas pessoas com quem eu vivo me alimentam, me dão um lugar quente e seco para morar, me paparicam, me amam e tomam conta de mim… eles devem ser deuses!” O pensamento do gato: “ei, essas pessoas com quem eu vivo me alimentam, me dão um lugar quente e seco para morar, me paparicam, me amam e tomam conta de mim… eu devo ser um deus!”

Enfim, tudo isso para dizer que, apesar de eu ser apaixonado e não abrir mão do convívio com os felinos, tanto uns quanto os outros são fascinantes – cães e gatos. Quando o Tom chega, todo feliz (e bobo), querendo brincar, ele desarma qualquer reação contrária que eu poderia ter. Quando algum dos bichanos finge que não estou nem aí e somente mostra alguma ação por puro e descarado interesse (típico deles), eu só posso sorrir e admitir que são umas ricas personalidades.

A estação mais interessante do ano

Há alguns dias escrevi sobre características bem peculiares que nos diferenciam e que nos assemelham – o texto das azeitonas e das cerejas. Rendeu, até porque não é o tipo de assunto que se conversa, por exemplo, num primeiro encontro. Pois com a chegada iminente do inverno, dos dias frios e chuvosos, sinto ter de “comprar” mais uma destas bandeiras: eu gosto de frio, gosto de chuva… amo o inverno!

Meus dias rendem quando  acordo e está caindo aquela chuvinha bacana. O frio me motiva a funcionar legal durante todo um dia. Me sinto disposto, com o humor mais leve, com o semblante mais tranquilo. Não tenho total aversão ao verão. O que se tira de bom é poder tomar uma cerveja com os amigos, usar uma bermuda, um chinelo… Mas termina por aí. No dia-dia de calor, você se sente preguiçoso, sem vontade. Animação  e disposição não combinam em nada com uma tarde abafada e grudenta de verão.

O verão é dos que gostam de academia, dos esportistas. O inverno é dos preguiçosos, de quem escreve, compõe. O verão é de música ruim tocada por carros de som barulhento. O inverno, povoca a hibernação dos mesmos.

Ninguém gosta de passar frio, veja bem. Da mesma forma, ninguém gosta de sentir sede ou sofrer insolação. Não sejamos extremistas.

Há estação mais propícia para se assitir filme, para ler, para tomar um vinho, ouvir uma música boa no carro do que o inverno?

O verão é efusivo. O inverno é low profile.

Eu tento sempre me adaptar. Todas as estações possuem suas particularidades apreciáveis. A primavera acho alegrinha demais, mas ok, dá uma quebra depois do inverno. O outono é, talvez, a melhor estação do ano, justamente por mesclar características de todas as outras – e por que nela vislumbramos dias melhores após um verão improdutivo e escaldante. É, também, a estação da mais bela luz natural. Os dias de sol são belíssimos e claros e a transformação da folhagem das árvores confere um ar único à paisagem.

Acho até que nós, aqui do sul do país, temos o privilégio de ter todas as estações do ano muito bem definidas. As diferenciações climáticas ao longo do ano fazem com que nossas nuances de personalidade também mudem ao longo deste período – o que nos torna mais adaptáveis e mais sucetíveis a mudanças de humor – sem contar que nunca falta assunto! Imagine viver num lugar onde é verão o ano todo: você sequer poder reclamar do tempo com algum estranho!

Quero ver se perco

Defendo a teoria de que algumas coisas acontecem e existem somente para que tenhamos um choque de realidade e para que saibamos sempre que a humanidade não tem salvação.

O disco novo do Neil Young, a biografia do Eric Clapton, a biografia do Keith Richards, o filme do Clint Eastwood, a mistura de hip-hop e samba do Marcelo D2, o livro do Eduardo Galeano, a Janelle Monáe… e outras coisas similares apenas nos inebriam da dura realidade cultural que nos cerca.

Pensando nisso, ao me deparar com as bizarrices da nossa cultura, eu sempre lanço a frase: quero ver se perco! Nos últimos dias me deparei com vários “quero ver se perco”. Tomem um sal de frutas e deliciem-se:

– Vocalista do Parangolé (quero ver se perco!) diz que no carnaval baiano (quero ver se perco!) o figurino de seu grupo será inspirado na banda Restart (quero ver se perco!).

– Cláudia Leitte (quero ver se perco!) confirmada no Rock in Rio 2011 (quero ver se perco!).

– Jonathan Corrêa (quero ver se perco!)  fará parceria com vocalista da banda Santo Graau (?!?) no Planeta Atlântida (quero ver se perco!).

– Pedro Bial (quero ver se perco!) e seus BBB’s… (quero ver se perco… aliás, quero que eles se percam para sempre do nosso planeta!).

Pois é. Fácil, fácil achar onde atribuir a frase. Não ajuda muito, eu sei, mas como falar mal daquilo que nos desagrada é um dos maiores prazeres da humanidade, aí está  uma solução paliativa muito particular e nada simpática. E sincera.

Você sempre saberá onde usar o “quero ver se perco”.

Para constar: vou continuar vivendo inebriado com as boas coisas que nos são proprocionadas pelos talentosos e sinceros em sua arte.

Natural Blues – Moby

Final de ano chegando, aproveito para meu último post de 2010. Você pode até reclamar ou não se sentir muito atraído, pois o conteúdo é um tanto melancólico e reflexivo.

“Natural Blues”, do Moby, é uma bela música e possui um clipe lindo e um tanto perturbador. O personagem é um Moby muito velho, em seus derradeiros dias, morando num asilo. Em frente à tv, ele vê um álbum com suas fotografias de quando era jovem, enquanto que na tela passam momentos de sua vida. O belo anjo que aparece ao final é interpretado por Christina Ricci.

Para não parecer algo tão melancólico, pense nos constantes finais e recomeços que a vida a todo momento nos impõe. Quem sabe, nesta época, podemos ver o clipe como uma metáfora daquilo que vivemos até então, deixando coisas desimportantes para trás, lembrando sempre de quem está ao nosso lado, levando-os conosco e, assim, tocando a vida em frente.